Pesquisadores da Embrapa Amazônia Oriental e da Universidade Federal do Pará (UFPA) concluíram, pela primeira vez, o sequenciamento completo do genoma do açaí (Euterpe oleracea), avanço considerado um marco para a pesquisa agropecuária e a bioeconomia da Amazônia. A descoberta permitirá acelerar o melhoramento genético da cultura, identificar genes relacionados à produtividade, à resistência a doenças e à qualidade dos frutos, além de abrir novas possibilidades para a indústria de alimentos, cosméticos e fármacos.
Os resultados foram publicados na revista científica Genome e representam um importante salto para o conhecimento sobre uma das espécies mais emblemáticas da Região Norte, cuja produção tem grande relevância econômica e social.
Entre os principais benefícios do sequenciamento está a possibilidade de reduzir significativamente o tempo necessário para o desenvolvimento de novas cultivares. Com o uso de marcadores genéticos, grande parte da seleção poderá ser realizada em laboratório, diminuindo em até três vezes o período normalmente exigido nos testes de campo.
A pesquisa utilizou amostras da cultivar BRS Pai d’Égua, desenvolvida pela Embrapa, além de frutos de variedades de açaí roxo e do chamado “açaí branco”. A comparação entre os materiais revelou que a coloração característica dos frutos roxos está associada à ativação de uma enzima responsável pela produção de antocianinas, pigmentos naturais conhecidos pela ação antioxidante. Já a variedade branca apresenta uma inibição dos genes que iniciam esse processo.
Segundo a pesquisadora Elisa Moura, da Embrapa Amazônia Oriental, o conhecimento do genoma permitirá identificar precocemente plantas com características desejáveis, sem a necessidade de esperar os cerca de seis anos até que o açaizeiro entre em plena produção.
Além do ganho em produtividade, o sequenciamento também cria uma base para o desenvolvimento de plantas mais resistentes a eventuais enfermidades. Embora atualmente não exista uma doença que represente grande ameaça à cultura, os pesquisadores destacam que o conhecimento genético facilitará a identificação de genes de resistência caso novos problemas sanitários surjam no futuro.
Outra frente de pesquisa busca selecionar variedades mais adaptadas ao cultivo em terra firme. Como o açaizeiro é originário das áreas de várzea da Amazônia, desenvolver plantas capazes de produzir bem em ambientes menos úmidos é uma das prioridades dos programas de melhoramento da Embrapa.
A pesquisadora Maria do Socorro Padilha, responsável pela equipe que lançou a primeira cultivar comercial de açaí, lembra que foram necessários 24 anos de pesquisas para chegar à variedade BRS Pará, lançada em 2005. Segundo ela, se as informações genômicas estivessem disponíveis naquela época, esse processo poderia ter sido concluído em apenas oito a dez anos.
Além das aplicações no campo, o mapeamento genético amplia as perspectivas para a biotecnologia. De acordo com o professor Rafael Baraúna, da UFPA, a identificação dos genes responsáveis pela produção de compostos como antioxidantes e corantes naturais poderá permitir que bactérias ou leveduras sejam modificadas para produzir essas substâncias em laboratório, reduzindo a necessidade de exploração intensiva da planta e tornando a obtenção desses compostos mais sustentável.
Os pesquisadores também anunciaram que todas as informações obtidas serão disponibilizadas em uma base pública de dados, permitindo que cientistas de todo o país utilizem o material em novas pesquisas sobre o açaí e outras espécies amazônicas.
Quatro décadas de pesquisas
A Embrapa desenvolve programas de melhoramento genético do açaí desde a década de 1990. O trabalho resultou no lançamento da cultivar BRS Pará, em 2005, voltada ao aumento da produtividade, e da BRS Pai d’Égua, em 2019, que alia alto rendimento à produção mais distribuída ao longo do ano quando cultivada sob irrigação, reduzindo os efeitos da entressafra.
Atualmente, o projeto Melhoraçaí – Fase III amplia as pesquisas tanto com o açaí de touceira (Euterpe oleracea), predominante no Pará, quanto com o açaí-solteiro (Euterpe precatoria), espécie nativa de estados como Acre, Amazonas, Rondônia e Roraima, buscando selecionar plantas com maior potencial para abastecer o mercado nacional de polpa e fortalecer a cadeia produtiva amazônica.










