O período de seca em Mato Grosso do Sul aumenta a necessidade de cuidados sanitários nas propriedades rurais, principalmente diante dos riscos relacionados às clostridioses. A redução da quantidade e da qualidade das pastagens, somada às mudanças na alimentação dos bovinos e à entrada de animais em sistemas de confinamento, pode ampliar a exposição do rebanho a fatores associados às doenças.
Embora a estiagem não seja responsável diretamente pelas clostridioses, as condições típicas desse período favorecem situações de risco. Com menos pasto disponível, os animais podem recorrer a fontes alternativas de alimento, enquanto a redução do volume de água em açudes e bebedouros aumenta a possibilidade de contato com materiais contaminados.
O cenário exige atenção especialmente em Mato Grosso do Sul, onde a pecuária de corte tem forte presença e propriedades recorrem à suplementação, alimentos conservados e sistemas intensivos para manter o desempenho dos animais durante os meses mais secos.
As clostridioses são provocadas por bactérias do gênero Clostridium ou pelas toxinas produzidas por esses microrganismos. Entre as enfermidades mais conhecidas estão botulismo, tétano, carbúnculo sintomático, conhecido como manqueira, gangrena gasosa, enterotoxemias e hemoglobinúria bacilar.
Segundo o médico-veterinário Ingo Mello, gerente técnico de Gado de Corte da Ourofino Saúde Animal, a restrição nutricional pode levar os animais a procurar outras fontes de alimento.
“Durante a seca, o desafio não está apenas na menor oferta de pastagem. Animais submetidos à restrição nutricional podem buscar fontes alternativas para saciar a fome, ficando mais expostos a plantas tóxicas, restos orgânicos e materiais contaminados. A redução do volume e da qualidade da água também precisa ser observada com atenção”, explica.
Água e alimentação exigem cuidados
Um dos principais riscos durante a seca é o botulismo, intoxicação provocada por toxinas da bactéria Clostridium botulinum. A contaminação pode ocorrer pelo consumo de água, ração, silagem ou feno que contenham matéria orgânica em decomposição, incluindo restos de pequenos animais ou aves.
A recomendação é que produtores façam inspeções frequentes em açudes, bebedouros, caixas-d’água e outros pontos utilizados pelo gado, principalmente quando o volume disponível diminui.
A conservação adequada de rações, silagens e fenos, além da suplementação mineral e da retirada correta de carcaças das áreas de criação, também integra as medidas preventivas.
Outro ponto de atenção é a mudança do pastejo para dietas com maior presença de concentrado, principalmente em sistemas de confinamento. A adaptação deve ocorrer de forma gradual e acompanhada por profissionais.
Alterações bruscas na dieta ou falhas no fornecimento podem provocar distúrbios metabólicos, mudanças no funcionamento do rúmen e queda no consumo, criando condições favoráveis ao desenvolvimento de algumas enfermidades associadas às bactérias do gênero Clostridium.
O transporte dos bovinos, a mistura de animais de diferentes propriedades, mudanças de ambiente e procedimentos realizados no curral também podem gerar estresse e aumentar a vulnerabilidade dos lotes.
Vacinação deve anteceder período de risco
Como algumas clostridioses apresentam evolução rápida e poucas possibilidades de tratamento depois do surgimento dos sintomas, especialistas reforçam que a prevenção deve começar antes da seca, da mudança na dieta ou da entrada dos animais no confinamento.
O protocolo deve considerar fatores como idade, categoria dos bovinos, histórico de vacinação, condições da propriedade e ocorrência das doenças na região.
Animais que nunca foram vacinados ou que possuem histórico sanitário desconhecido normalmente precisam receber um esquema inicial com mais de uma dose, seguido pelos reforços recomendados.
“Quando falamos em clostridioses, esperar o aparecimento dos sinais pode significar agir tarde demais. A vacinação precisa ser planejada antes da seca, da mudança de dieta ou da entrada no confinamento, com respeito ao esquema inicial e aos reforços”, afirma Mello.
O especialista recomenda atenção principalmente aos animais de até um ano, bovinos sem histórico conhecido de imunização e propriedades que tenham registrado surtos. Para animais adultos já imunizados, a orientação é manter os reforços periódicos previstos no protocolo sanitário.
Além da vacinação, medidas como oferta de água de qualidade, armazenamento correto dos alimentos, adaptação gradual às novas dietas, suplementação mineral e manejo adequado são consideradas fundamentais para diminuir o risco de perdas produtivas e mortes no rebanho.








