Um relatório técnico elaborado pelo Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) aponta que efluentes lançados pela Suzano contribuíram de forma significativa para o processo de degradação ambiental do Rio Pardo e para a proliferação de macrófitas aquáticas no reservatório da Usina Hidrelétrica (UHE) Mimoso, em Ribas do Rio Pardo.
O documento, divulgado em 5 de agosto, é resultado de uma fiscalização que envolveu inspeções de campo, análises laboratoriais, monitoramento com drones e avaliação de imagens de satélite. O objetivo foi identificar as causas do avanço das plantas aquáticas e da deterioração da qualidade da água.
Apesar de destacar a contribuição dos efluentes industriais, o Imasul ressalta que o problema tem origem em diferentes fontes. Entre elas estão a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) operada pela Sanesul, atividades desenvolvidas em propriedades rurais, deficiências de saneamento em loteamentos próximos ao reservatório e as próprias características do barramento da hidrelétrica.
Excesso de fósforo
De acordo com o relatório, dados do automonitoramento realizado pela Suzano e análises do próprio Imasul identificaram, durante três meses consecutivos, lançamentos de efluentes tratados acima de parâmetros previstos na outorga ambiental.
As amostras apresentaram concentrações elevadas de fósforo total e aumento da Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO), indicador relacionado à presença de matéria orgânica na água.
Na conclusão técnica, o órgão ambiental afirma que os efluentes da indústria contribuíram significativamente para elevar o grau de trofia do ambiente e, consequentemente, favorecer o crescimento da população de macrófitas aquáticas.
Dos dez pontos monitorados durante a fiscalização, seis apresentaram concentrações de fósforo superiores aos limites estabelecidos pela legislação ambiental. Em determinados locais, os índices ficaram mais de 30 vezes acima do permitido.
Trechos situados depois do ponto de lançamento dos efluentes foram classificados como hipereutróficos, condição caracterizada pelo excesso de nutrientes na água e que cria ambiente favorável à multiplicação acelerada de plantas aquáticas.
O relatório relaciona esse enriquecimento por fósforo ao avanço das macrófitas que passaram a ocupar grandes áreas do reservatório da UHE Mimoso.
Sanesul também é apontada
A fiscalização também identificou problemas na Estação de Tratamento de Esgoto de Ribas do Rio Pardo, operada pela Sanesul em parceria com empresas responsáveis pelos serviços de saneamento.
Segundo o Imasul, a unidade funcionava acima da capacidade licenciada e apresentava falhas operacionais, deficiência na retirada de lodo e utilização de sistema de bypass.
Esse procedimento desvia parte do fluxo do processo regular de tratamento, fazendo com que o efluente não percorra todas as etapas previstas antes do lançamento no meio ambiente.
As análises também apontaram concentrações elevadas de coliformes e da bactéria Escherichia coli após o ponto de despejo do esgoto tratado. Os efluentes da estação são lançados no Rio Botas, que posteriormente deságua no Rio Pardo.
Propriedades rurais e barragem
Outros fatores identificados pelos técnicos incluem erosões em propriedades rurais, transporte de sedimentos para os cursos d’água, criação de animais próximo aos rios, descarte irregular de resíduos e utilização de fossas rudimentares em ranchos e loteamentos localizados às margens do reservatório.
O próprio funcionamento da UHE Mimoso também influencia o problema. Conforme o relatório, o barramento reduz a velocidade da água e favorece a retenção e o acúmulo de nutrientes, ampliando os efeitos provocados pelas diferentes fontes de poluição.
A combinação desses fatores levou o reservatório a um quadro considerado crítico de hipereutrofização.
Segundo os técnicos, a situação prejudica atividades como pesca, navegação e lazer, além de afetar o funcionamento da hidrelétrica e representar risco à biodiversidade aquática devido à redução dos níveis de oxigênio dissolvido na água.
Cobranças por providências
A situação do Rio Pardo já havia provocado cobranças de representantes políticos. A vereadora Jaqueline Arimura (PT) levou o problema ao debate na Câmara Municipal de Ribas do Rio Pardo em maio de 2025.
Antes disso, acompanhada dos vereadores Lucas Lopes (PT) e Jeová da Silva Prado (PP), ela esteve em áreas afetadas pela concentração de macrófitas e conversou com moradores e trabalhadores da hidrelétrica.
Na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, o deputado estadual Pedro Kemp (PT) também cobrou providências do Imasul e acionou o Ministério Público Estadual.
Medidas recomendadas
Para tentar recuperar o sistema hídrico, o Imasul recomenda uma série de providências, entre elas a redução das cargas de fósforo e nitrogênio lançadas no Rio Pardo, adequações operacionais na estação de tratamento da Sanesul, medidas de conservação do solo nas propriedades rurais e melhorias no saneamento dos loteamentos próximos ao reservatório.
O órgão também defende a implantação de um programa permanente de manejo das macrófitas.
Em relação à UHE Mimoso, os técnicos recomendam a elaboração e execução de um plano de limpeza integral do reservatório, acompanhado de medidas operacionais permanentes para reduzir a recorrência do problema.
Suzano contesta interpretação
Em nota, a Suzano afirmou que mantém gestão ambiental responsável, monitoramento contínuo das operações e cumprimento das condições estabelecidas no licenciamento ambiental.
A companhia argumentou que, mesmo no período de três meses mencionado no relatório, ocorrido durante a fase inicial de operação da unidade, a carga orgânica lançada no Rio Pardo permaneceu abaixo do limite autorizado porque o volume de efluentes despejado teria sido significativamente inferior à vazão máxima permitida.
A empresa informou ainda ter apresentado ao Imasul os esclarecimentos técnicos solicitados e destacou que o próprio relatório reconhece a existência de múltiplos fatores responsáveis pelas condições ambientais encontradas no reservatório.
A Suzano acrescentou que permanece à disposição dos órgãos responsáveis e reafirmou o compromisso com a transparência, a cooperação institucional e as práticas de gestão ambiental.
A concessionária responsável pela UHE Mimoso também foi procurada para se posicionar sobre as conclusões do relatório, mas não havia apresentado resposta até a publicação.
A Sanesul, citada no documento por problemas encontrados na estação de tratamento de esgoto de Ribas do Rio Pardo, igualmente não havia se manifestado.









