Em entrevista à Rádio FM 94.9 Difusora, Júlia Bortolini, presidente do SAAE (Serviço autônomo de água e esgoto) de São Gabriel do Oeste, detalhou os desafios financeiros da autarquia, comparou tarifas e revelou investimento de R$ 2 milhões em novo poço, além de um projeto para uma estação de tratamento moderna que atenderá a cidade pelos próximos 30 anos
Enquanto a privatização dos serviços de saneamento avança por todo o Brasil, São Gabriel do Oeste segue como uma das nove cidades de Mato Grosso do Sul que mantêm a gestão pública da água e do esgoto. Mas essa posição, segundo Júlia Bortolini, não é garantia automática para o futuro.
Júlia fez um alerta claro: quanto menos municípios mantiverem o serviço público, mais fracos ficam os que resistem. “Daqui dez ou quinze anos, não sabemos como será a nossa realidade. O SAAE é um patrimônio nosso, de todos os moradores. Precisamos cuidar dele”, afirmou.
A presidente participou na semana passada do Congresso Nacional de Saneamento da AESBE (Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento Básico), onde coordenou um painel sobre liderança feminina no setor. Ela também comanda a regional da entidade em Mato Grosso do Sul, criada justamente para fortalecer os serviços municipais diante da “onda de privatização” impulsionada pelo Novo Marco do Saneamento, lei que obriga a regionalização e estabelece metas de universalização até 2033.
Um dos argumentos centrais da gestora foi a diferença brutal nas contas pagas pela população. De acordo com dados apresentados por Bortolini, uma residência que consome 10 metros cúbicos de água paga
40 no SAAE de São Gabriel do Oeste. O mesmo consumo na Sanesul, que atende 68 municípios do Estado, sai por 118. Já na Águas Guariroba, concessionária privada de Campo Grande, a conta chega a R$ 156.
“Todo o dinheiro arrecadado aqui fica na cidade e é reinvestido aqui. Empresa privada precisa dar lucro e pagar dividendos”, comparou a presidente, que reforçou ser totalmente contra a privatização. “Sou favorável ao serviço público municipal. Sempre iremos lutar para evitar a perda de espaço para as privadas.”
A entrevista também trouxe novidades sobre um dos problemas históricos da cidade: a lagoa de tratamento de esgoto, que por anos incomodou moradores com mau cheiro. Bortolini afirmou que a eficiência da estação subiu de 30% para 68% apenas com melhorias operacionais, mas reconheceu que o problema estrutural permanece.
“A lagoa foi projetada para até 30 mil habitantes, e já ultrapassamos esse número há muito tempo”, disse. A solução, segundo ela, está em fase avançada: há 15 dias foi assinado o compromisso de compra de uma nova área para construir uma estação moderna, que atenderá até 60 mil habitantes. Além disso, o projeto permitirá desativar três estações elevatórias que vivem dando problema dentro da cidade.
“Com a nova estação, todo o esgoto virá por gravidade. Teremos uma única elevatória. Acabam os vazamentos, o mau cheiro e os altos custos de manutenção”, projetou. O próximo passo é elaborar os projetos e buscar financiamento — possibilidade que, segundo ela, deverá ser aprovada pela Câmara Municipal.
Para evitar desabastecimento na região do Jardim Gramado, onde a demanda cresceu com novos loteamentos e condomínios, o SAAE já comprou uma área e abriu licitação para perfurar um novo poço, construir reservatório e casa de tratamento. O investimento total é de cerca de R$ 2 milhões, com parte dos recursos vinda de emenda parlamentar do deputado Marcos Pollon (PL). A previsão é que a obra fique pronta até o final do ano.
“Não podemos exigir que um condomínio pequeno construa o próprio sistema. É inviável. Por isso, nos antecipamos”, explicou Bortolini.
Em um dos momentos mais contundentes da entrevista, a presidente fez um mea-culpa e um alerta sobre as contas da autarquia. Ela revelou que, por decisão política, as tarifas ficaram congeladas nos últimos seis anos — período que inclui pandemia, alta dos materiais, combustíveis e salários.
“Por muito tempo, o SAAE foi visto como uma autarquia rica, que tinha muito dinheiro guardado. Mas, com o congelamento, perdemos poder de compra. O que tínhamos acabou”, disse. Hoje, o caixa tem cerca de R$ 4 milhões — valor insuficiente até para uma única obra de saneamento de grande porte.
O maior rombo, porém, está na coleta de lixo, serviço repassado ao SAAE há dez anos. Segundo Bortolini, a taxa de coleta teve apenas 30% de reajuste no período, enquanto o combustível mais que dobrou e a cidade cresceu. “Arrecadamos R$ 1,7 milhão por ano com a taxa, mas o gasto é muito maior. Mantemos um serviço de primeiro mundo, mas ele tem custo.”
Apesar dos desafios, Bortolini destacou que a inadimplência em São Gabriel do Oeste é de apenas 1% — índice considerado excelente. Ela também reforçou a importância de os moradores fazerem a ligação correta do esgoto (hoje em 87% das residências, embora a rede cubra 100% da cidade) e evitarem jogar lixo, panos ou tampinhas na rede.
“Praticamente todos os dias, nossa equipe desobstrui redes entupidas. Nas elevatórias, tiramos grades cheias de objetos duas ou três vezes por dia. Isso gasta dinheiro que poderia ser investido”, afirmou.
A presidente também lamentou a baixa participação popular na última audiência pública de prestação de contas. “A população ainda não tem o costume de participar. Mas é preciso entender a realidade do SAAE para que possamos continuar oferecendo tarifas justas e serviço de qualidade.”
Questionada se a privatização em São Gabriel do Oeste é um risco real, Bortolini ponderou: “Hoje, não tenho tanta preocupação, porque já temos serviço universalizado há dez anos.” Mas lembrou que qualquer mudança dependeria da Câmara Municipal — onde, segundo ela, há resistência à ideia.
“O problema são os outros municípios, muitos sem nem um metro de rede de esgoto. Quanto menos serviços públicos sobrarem no estado, menos força teremos para defender o nosso lá na frente”, concluiu.
Tony Franco










