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Mercado de máquinas agrícolas aposta em crédito e alta das commodities para reagir

A recuperação recente dos preços de algumas commodities, a liberação de recursos do Plano Safra e o envelhecimento da frota no campo começam a trazer perspectivas mais favoráveis para o mercado brasileiro de máquinas agrícolas. Apesar dos sinais positivos, fabricantes ainda enfrentam juros elevados, restrições ao crédito, margens apertadas dos produtores e incertezas provocadas pelo clima.

Para o vice-presidente de Vendas da CNH para a América Latina, Paulo Arabian, a valorização recente de produtos como soja, milho e arroz ajuda a melhorar a capacidade de investimento do agricultor e pode estimular novas compras de equipamentos.

“Esse ano a gente teve, agora recentemente, uma melhora nos preços das commodities, envolvendo o arroz, o milho e a soja, o que fomenta um interesse maior em máquinas agrícolas e uma perspectiva mais saudável a médio prazo”, afirma.

A avaliação é semelhante à apresentada pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Ao divulgar os números do mercado referentes a julho, o presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas, Pedro Estevão Bastos, destacou a valorização da soja e do milho como um dos fatores capazes de melhorar as perspectivas para o setor.

A reação das commodities, porém, ainda não elimina os principais problemas enfrentados pelo produtor. Arabian aponta os juros, a dificuldade de acesso ao crédito e os riscos climáticos entre os fatores que continuam limitando os investimentos.

Diante desse cenário, a expectativa é de um mercado próximo ao registrado no ano passado, depois de sucessivos períodos de retração na comercialização de equipamentos.

Frota envelhecida pressiona por renovação

Além da melhora dos preços agrícolas, outro fator pode impulsionar as vendas: a necessidade de substituir máquinas que permanecem há mais tempo em atividade.

Segundo Arabian, o mercado atravessa o quarto ano consecutivo de volumes mais baixos. Como consequência, produtores vêm adiando a troca de tratores, colheitadeiras e implementos.

“A gente vem de um quarto ano de baixa no volume de vendas de máquinas, o que significa que a frota envelheceu. A frota mais velha começa a ficar menos eficiente do ponto de vista de performance e custo operacional”, explica.

O envelhecimento cria uma demanda reprimida. O desafio, entretanto, é transformar a necessidade de renovação em compras efetivas em um período em que a rentabilidade do produtor continua pressionada.

Essa situação também é apontada pela Abimaq como uma das explicações para a retração do mercado. Diante de margens menores, agricultores priorizam gastos essenciais para implantação das lavouras e deixam investimentos em máquinas para um segundo momento.

Arabian avalia, entretanto, que continuar adiando a renovação também tem custos, principalmente pela perda de produtividade e pelo aumento dos gastos com manutenção.

“A vontade do produtor está mais conectada com a capacidade dele poder renovar logo essa frota e ter uma safra mais eficiente para se blindar de oscilações de preço”, diz.

Tratores menores vão na contramão

Embora o mercado de máquinas agrícolas enfrente retração, alguns segmentos apresentam comportamento diferente. É o caso dos tratores de menor potência.

O gerente de Marketing de Produto da Massey Ferguson, Lucas Zanetti, afirma que equipamentos abaixo de 80 cavalos vêm registrando desempenho positivo.

“Apesar da indústria total de tratores ter uma projeção de queda nas vendas em 2026, a indústria de baixa potência, principalmente abaixo de 80 cv, tem crescido nos últimos anos e a projeção para este ano é continuar subindo”, afirma.

Esse movimento beneficia principalmente fabricantes voltados a pequenas e médias propriedades rurais, menos dependentes das grandes lavouras de grãos.

No início deste ano, a Agritech projetou crescimento de 10% nas vendas de tratores destinados a pequenas propriedades, puxado pela necessidade de mecanização e pela disponibilidade de crédito rural. A empresa também informou que as vendas de microtratores haviam aumentado 96% no ano anterior.

Para Zanetti, existe espaço para continuidade desse movimento.

“É um tipo de trator importante para o agro, então, por isso, a nossa expectativa de vendas é boa para este ano”, afirma.

Plano Safra aumenta expectativa

A oferta de financiamento é considerada decisiva para uma recuperação mais consistente do mercado.

O gerente de Vendas e Marketing da Agritech, César Roberto Guimarães de Oliveira, afirma que a fabricante espera uma aceleração das negociações com a liberação dos financiamentos previstos no Plano Safra 2026/27.

“Estamos bastante esperançosos agora com a liberação do Plano Safra. A gente já espera que as vendas sejam melhores do que no ano passado, que é exatamente a nossa meta”, afirma.

Segundo Oliveira, o ritmo de vendas ainda está abaixo do esperado, mas eventos do setor podem ajudar a aproximar produtores das linhas de financiamento disponíveis.

“Até agora os resultados estão devagar, mas eu acho que a Expointer vai nos ajudar a atingir as nossas metas em função das liberações dos financiamentos”, acrescenta.

A Abimaq também aposta no crédito subsidiado como elemento de estímulo. Programas como Move Brasil, Moderfrota e Pronaf oferecem taxas mais favoráveis do que aquelas encontradas normalmente no mercado financeiro e podem favorecer a aquisição de equipamentos.

Mesmo assim, a entidade avalia que o Plano Safra não será suficiente, sozinho, para provocar uma virada imediata nas vendas. Na avaliação feita durante o lançamento do programa 2026/27, a associação destacou avanços nas condições de financiamento, mas sem medidas capazes de reverter rapidamente a retração.

Clima mantém incerteza no setor

Outro ponto de preocupação é o comportamento do clima. Eventos extremos registrados nos últimos anos, especialmente no Rio Grande do Sul, comprometeram safras e reduziram a capacidade de investimento de produtores.

Para Zanetti, a instabilidade climática influencia diretamente as decisões de compra, mas, ao mesmo tempo, aumenta a necessidade de equipamentos capazes de realizar as operações agrícolas com maior velocidade.

“O produtor às vezes precisa plantar mais cedo ou um pouquinho mais tarde e, às vezes, semear muito rápido para que o fator clima não interfira tanto”, explica.

Nesse cenário, máquinas com tecnologias embarcadas ganham importância por permitirem plantar e colher em intervalos menores e utilizando os recursos disponíveis com maior eficiência.

Arabian também considera o clima um dos principais fatores de risco para o mercado. Na avaliação do executivo, o agricultor enfrenta uma escolha difícil: uma quebra de safra reduz a capacidade de investimento, mas manter máquinas antigas pode diminuir a eficiência justamente quando é necessário aproveitar ao máximo a produção disponível.

“Se ele também não fizer o investimento para atualizar a máquina, na parte em que ele não pode ter quebra de safra, ele pode colher de forma mais eficiente e maximizar o retorno”, afirma.

Na Agritech, que atua fortemente em segmentos como horticultura e fruticultura, a preocupação também existe, embora a empresa identifique disposição dos produtores em ampliar a mecanização.

“Percebemos que o produtor está querendo produzir. Ele está precisando de recurso e, com esse recurso saindo, ele vai comprar máquinas”, avalia Oliveira.

Setor ainda deve terminar ano em queda

Os dados da Abimaq mostram que qualquer reação nos próximos meses terá de compensar uma retração significativa acumulada até julho.

Mesmo com possibilidade de aumento das vendas no segundo semestre, a entidade trabalha com perspectiva de queda de aproximadamente 20% no mercado de máquinas agrícolas em 2026.

Quatro fatores, porém, podem ajudar a reduzir esse resultado negativo: a chegada dos recursos do Plano Safra, a recuperação das cotações agrícolas, o envelhecimento da frota brasileira e a busca dos produtores por maior eficiência operacional.

No sentido contrário permanecem juros elevados, margens reduzidas, dificuldades de financiamento e riscos climáticos.

O equilíbrio entre esses fatores deve determinar o comportamento das vendas até o fim do ano. Para alguns agricultores, a compra de uma máquina nova ainda poderá ser adiada. Para outros, depois de anos prolongando a vida útil dos equipamentos, manter a frota antiga já começa a representar custos maiores com manutenção, perda de eficiência e risco de não aproveitar adequadamente as janelas de plantio e colheita.

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