Foi com olhos brilhando e coração acelerado que a equipe do projeto social de Jiu-Jitsu “Aqui Há Esperança” deixou São Gabriel do Oeste rumo a Barueri (SP), onde disputa o Campeonato Brasileiro de Jiu-Jitsu Kids.
Completando 12 anos em 2026, o projeto social começou sua trajetória em 27 de outubro de 2014, no antigo Sonoriza, com o apoio da Fundação de Esporte e do então presidente Evair Oreiro Coelho. Naquela época, apenas quatro atletas participavam. Hoje, são entre 240 e 250 jovens registrados na Federação de Judô de Mato Grosso do Sul.
Totalmente gratuito, o trabalho se mantém graças à Prefeitura Municipal, à Secretaria de Cultura, Turismo e Esporte, e a empresas parceiras como Sicredi, Agrotrevo, Destaknet e King Kimonos. A única cobrança feita aos alunos é: boas notas na escola, frequência regular e conduta exemplar dentro e fora do tatame. Quem descumpre fica impedido de competir até corrigir a postura.
Neste ano, nove competidores seguem para o Brasileiro, que acontece nos dias 12, 13 e 14 de junho. A equipe poderia levar entre 15 e 20 jovens, mas as inscrições se esgotaram rapidamente — abertas em março, foram encerradas já em abril. Quatro ou cinco atletas com alto potencial de medalha ficaram na lista de espera, que não foi reaberta em 2026.
No ano passado, no Open de Curitiba, o resultado foi histórico: dos 20 inscritos (três adultos e 17 crianças), todas as meninas e meninos subiram ao pódio com ouro, prata ou bronze. A equipe ainda conquistou o 6º lugar na classificação geral — um marco para um grupo do interior do Estado.
O projeto recebe pessoas a partir dos 4 anos, sem limite máximo — há turmas até para a faixa Master 5, dos 60 aos 70 anos ou mais. Segundo o professor Sílvio, formado em Educação Física e Contabilidade, faixa preta com três graus, a base de tudo é disciplina, respeito e caráter: “Sem isso, vira bagunça.”
O trabalho ainda conta com o apoio da Academia Up Academia e de Leandro Torrelli e Vinícius, que ajudam na formação de atletas com potencial, sempre com contrato formal. Qualquer erro fora do tatame gera punição — a ideia é formar cidadãos, não apenas competidores.
Natalie, 12 anos, começou aos 9, incentivada por uma amiga da escola, e logo se apaixonou. Ela reforça que a disciplina vale para todos os lados: respeito aos pais, professores e colegas, além de cuidado com a alimentação — cada categoria segue regras rígidas de peso e idade.
Ariela, apenas 9 anos, é a menorzinha da delegação e uma promessa de destaque. Chegou ao projeto sem kimono, mas mostrou tanta força que Sílvio ligou na hora para um patrocinador em Coxim: “Essa menina é braba.” Na primeira competição, finalizou a adversária em menos de 8 segundos. Hoje, está cerca de 300 gramas acima do peso e corre para ajustar a dieta até sexta, dia de sua luta. O objetivo é claro: voltar com o ouro e a foto comemorativa na rádio.
Micaele, irmã de Ariela, já tem experiência — é sua segunda vez no Brasileiro. Lorenzo, 12 anos, treina desde os 4 e explica: “Quem faz jiu-jitsu não pode arrumar confusão, pois associam o nome do esporte ao erro.” O autocontrole é treinado diariamente, com ajuda da escola.
Nicolas, 14 anos, irmão de Lorenzo, está há oito anos na modalidade. Começou no futebol, mas escolheu o jiu-jitsu e não pensa em parar. Natan, campeão mundial pela CBJJE, conta que quebrou o dedo um dia antes de uma competição brincando de futebol por não seguir as orientações. Seu recado: “O esporte faz bem ao corpo e à mente — dá para conciliar com estudo e trabalho, basta organizar o tempo.”
Ágata, com cinco anos de prática, já disputou um mundial e conquistou o terceiro lugar. Gabriel, chamado carinhosamente de Titico pelo professor, fala do lado humano do esporte: já viu alunos com depressão e ansiedade encontrarem alívio e motivação no tatame. “Se perder, não é o fim — é motivo para treinar ainda mais forte.”
Um grande marco foi a parceria firmada em 2025 com a Federação de Jiu-Jitsu dos Emirados Árabes. Sem promessas prévias, o parceiro enviou mais de mil cestas básicas, centenas de kimonos e 180 m² de tatame, distribuídos às famílias e também doados a igrejas da região. Em 2026, os envios foram interrompidos por conflitos na região, mas a ajuda deve retornar assim que possível.
O projeto também chegou ao assentamento, onde Sílvio dá aulas às quartas-feiras, a convite da secretária Ana Moreira e de Dona Nena. Ele já garante: de lá virão novos campeões. A rotina de treinos é intensa: segundas, terças, quartas e quintas, além dos sábados pela manhã.
Antigo “Diga não às drogas, pratique jiu-jitsu”, o projeto ganhou novo nome em dezembro de 2025: “A Esperança”, como forma de renovar a mensagem de transformação.
O professor Sílvio mantém tudo regularizado para oferecer segurança aos alunos e tranquilidade aos pais. Ele cumpriu uma promessa feita ao seu mestre Renato Machado: ao receber a faixa preta, dedicar-se-ia a dar aulas gratuitas para crianças carentes. Hoje, quase 90% dos alunos vêm da região do Gramado, e muitos ex-alunos já são profissionais formados — engenheiros, universitários, militares — provando que o esporte é caminho certo para a vida toda.
Quem quiser ajudar ou conhecer o projeto pode procurar na Rua Coricaca, nº 842, em São Gabriel do Oeste. Como diz o professor Sílvio:
“O jiu-jitsu entra na veia e não sai mais — e transforma vidas para sempre.”
Tony Franco










