A contratação de seguro agrícola em Mato Grosso do Sul caiu 42,7% entre janeiro e maio de 2026 na comparação com o mesmo período do ano passado. Os dados constam em levantamento da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) e mostram uma retração ainda maior, de 47,3%, quando considerado o acumulado de 12 meses encerrado em maio.
A redução ocorre justamente em um momento de atenção para as condições climáticas da próxima safra. A expectativa é de fortalecimento do El Niño nos próximos meses, com possibilidade de temperaturas acima da média e maior irregularidade das chuvas, fatores que aumentam os riscos para lavouras e para a pecuária.
Para o economista e diretor de negócios da Agricon Consultoria, Hudson Garcia, o seguro deve fazer parte do planejamento financeiro da propriedade rural da mesma forma que despesas com sementes, fertilizantes, defensivos, combustíveis, mão de obra, financiamento e logística.
“Porque permite ao produtor transferir parte de um risco que, de outra forma, ficaria totalmente dentro da propriedade. É uma forma de proteger o capital investido na lavoura e preservar a capacidade financeira do produtor diante de uma eventual perda”, afirma.
Segundo Garcia, a análise não deve se limitar ao preço da apólice. “A questão não é simplesmente quanto custa o seguro, mas quanto risco o produtor consegue assumir. É preciso avaliar quanto capital está exposto, quais riscos podem comprometer esse capital e quanto dessa exposição pode ser transferida por meio da cobertura contratada”, explica.
O seguro agrícola é uma das modalidades do seguro rural e, conforme as condições previstas em cada contrato, pode oferecer proteção contra prejuízos provocados por eventos climáticos. As coberturas podem envolver custeio, produtividade ou faturamento, dependendo do produto contratado.
Outro indicador da redução da proteção no campo aparece no Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). Embora os números não representem todo o mercado, já que existem apólices contratadas sem auxílio federal, eles apontam queda significativa da área segurada.
Em 2024, aproximadamente R$ 1,072 bilhão em subvenções possibilitaram a emissão de 138,1 mil apólices, responsáveis pela cobertura de cerca de 7,3 milhões de hectares e de R$ 51,6 bilhões em capital. Em 2025, foram aplicados R$ 565,4 milhões para aproximadamente 42 mil produtores, com proteção de 3,2 milhões de hectares e R$ 17,8 bilhões.
“O produtor planeja os custos com sementes, fertilizantes, defensivos, combustíveis, operações, mão de obra, financiamento e logística. O seguro precisa estar dentro dessa mesma lógica de planejamento, porque estamos falando de proteger uma parcela do capital que foi investido antes de a receita da produção acontecer”, destaca Garcia.
Para o economista, cada propriedade precisa avaliar quanto risco consegue absorver diretamente e quanto deve transferir para uma seguradora. “O importante é entender qual nível de risco a propriedade consegue suportar sem comprometer seu capital de giro, suas obrigações e a próxima safra”, acrescenta.
Clima aumenta preocupação no campo
A retração na contratação dos seguros ocorre às vésperas de uma temporada que pode apresentar maior instabilidade climática. Com o aquecimento das águas do Oceano Pacífico, o El Niño pode ganhar força e atingir seu período de maior intensidade entre outubro e dezembro.
Em Mato Grosso do Sul, a principal consequência deve ser o aumento das temperaturas. Conforme análise do pesquisador da Embrapa e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Eduardo Assad, o fenômeno poderá provocar ondas de calor mais intensas, especialmente durante o período de plantio da soja.
No sul do Estado, há ainda possibilidade de chuvas acima da média a partir de dezembro, reflexo de um padrão climático que também costuma atingir a Região Sul do Brasil, além de áreas do Paraguai e da Argentina.
“Estas ondas de calor podem provocar óbitos nos bovinos, podem secar a soja e, se durarem muito, estas ondas podem até secar o milho. O fenômeno vai ter seu pico em outubro e novembro, que é o período em que a gente planta soja no Brasil”, alerta Assad.
Produção agropecuária de MS chega a R$ 83,47 bilhões
Apesar dos riscos climáticos e da redução da área protegida por seguros, a produção agropecuária de Mato Grosso do Sul deve movimentar R$ 83,47 bilhões em 2026, segundo estimativas do Ministério da Agricultura e Pecuária. O valor representa crescimento de aproximadamente R$ 1,16 bilhão, ou 1,4%, frente aos R$ 82,32 bilhões registrados em 2025.
Com o resultado, Mato Grosso do Sul ocupa a sétima posição entre os estados com maior Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) do País e responde por cerca de 6% da riqueza gerada pelo setor nacionalmente.
O ranking é liderado por Mato Grosso, com R$ 216,05 bilhões, seguido por Minas Gerais, com R$ 166,28 bilhões, São Paulo, com R$ 156,24 bilhões, Paraná, com R$ 151,12 bilhões, Goiás, com R$ 117,80 bilhões, e Rio Grande do Sul, com R$ 101,70 bilhões.
No Estado, a soja continua como principal produto agrícola, com VBP estimado em R$ 30,69 bilhões neste ano, valor mais de um terço superior à participação dos demais produtos na composição total da produção estadual. Em 2025, a oleaginosa havia movimentado R$ 26,89 bilhões, o que representa avanço de 14,1%.
Na pecuária, o destaque segue sendo a bovinocultura, com VBP estimado em R$ 23,27 bilhões em 2026, diante dos R$ 21,93 bilhões registrados no ano passado. O aumento é de R$ 1,34 bilhão, equivalente a 6,1%.










