O avanço da produção de biocombustíveis no Brasil deverá provocar mudanças importantes no mercado de grãos e na alimentação animal nos próximos anos. Projeções do Rabobank indicam que o aumento do biodiesel e do etanol tende a ampliar a disponibilidade de farelo de soja e DDGS, criando alternativas para a formulação de rações e ajudando a sustentar a expansão da produção brasileira de carnes.
Um dos principais movimentos analisados pelo RaboResearch, braço de pesquisas do banco, é o aumento da mistura obrigatória de biodiesel ao diesel. A Lei do Combustível do Futuro estabelece que o percentual poderá chegar a 20% até 2030.
Embora o banco considere a possibilidade de atrasos no cronograma, a avaliação é de que a demanda por biodiesel continuará crescendo. Caso a mistura de 20% seja alcançada, o esmagamento de soja no País poderá chegar a aproximadamente 69 milhões de toneladas.
O aumento do processamento da oleaginosa teria como consequência uma oferta adicional de cerca de 5 milhões de toneladas de farelo de soja em comparação com o volume estimado para 2025.
Como a produção do farelo deve avançar em ritmo superior ao crescimento da demanda, a tendência apontada pelo Rabobank é de manutenção de preços competitivos, cenário que pode beneficiar principalmente as cadeias de bovinos, aves e suínos.
Etanol amplia oferta de DDGS
No mercado de milho, o avanço dos biocombustíveis produz efeitos diferentes. A expansão das usinas de etanol aumenta a competição pelo cereal, que também é utilizado diretamente na fabricação de rações.
Em contrapartida, o processamento do milho gera DDGS, coproduto rico em proteína e energia que pode substituir parcialmente tanto o milho quanto o farelo de soja na alimentação dos animais.
Nos últimos cinco anos, a oferta brasileira de DDGS cresceu, em média, 21% ao ano. Para 2031, o RaboResearch estima disponibilidade próxima de 8 milhões de toneladas.
Dessa forma, o crescimento do etanol de milho não significa necessariamente aumento da quantidade total de grãos disponíveis para alimentação animal. A principal consequência deverá ser uma transformação na composição das rações, com redução da dependência direta do milho.
Sorgo ganha espaço nas rações
Outra alternativa que deve avançar é o sorgo. O cereal tende a ganhar importância principalmente em regiões nas quais a falta de chuva dificulta o plantio do milho segunda safra ou quando atrasos no ciclo da soja encurtam a janela disponível para a implantação do milho.
Na safra 2025/26, a produção brasileira de sorgo alcançou aproximadamente 6 milhões de toneladas. A projeção do Rabobank é de que esse volume chegue a 10 milhões de toneladas em 2031.
Com maior disponibilidade, o sorgo deverá ocupar parcela crescente das formulações de alimentação animal, funcionando como substituto parcial do milho.
Alimentação responde por até 80% do custo
A ampliação do número de ingredientes disponíveis pode melhorar diretamente a competitividade da produção brasileira de carnes, já que a alimentação representa uma das maiores parcelas dos custos das atividades pecuárias.
Nos confinamentos bovinos, a ração costuma responder por entre 70% e 80% dos custos operacionais. Em Mato Grosso, por exemplo, a despesa média com alimentação no confinamento atingiu aproximadamente R$ 13,62 por animal por dia em junho de 2026, conforme dados do Imea citados pelo relatório.
Na suinocultura de Santa Catarina, a alimentação representou cerca de 72% dos custos operacionais no primeiro semestre deste ano. Já na produção de frangos do Paraná, a participação ficou próxima de 63%, segundo informações da Embrapa apresentadas pelo RaboResearch.
Quanto maior a disponibilidade de diferentes matérias-primas, maior também é a flexibilidade de produtores e nutricionistas para substituir ingredientes e ajustar as dietas conforme as oscilações de preços.
Brasil amplia presença no mercado mundial de carnes
A competitividade dos custos de produção é apontada como um dos fatores que ajudam a explicar a forte presença brasileira no comércio internacional de proteínas animais.
Na carne bovina, o Brasil responde por aproximadamente 15% da produção mundial, mas concentra mais de 22% das exportações.
No setor de frango, a diferença é ainda maior. O País representa cerca de 11% da produção global e responde por quase 34% do comércio internacional. Na carne suína, a participação brasileira é de aproximadamente 4,4% da produção e 14,7% das exportações mundiais.
Além da disponibilidade de alimentos a preços competitivos, o Rabobank atribui o desempenho brasileiro às condições de produção e aos sucessivos ganhos de produtividade registrados nas últimas décadas.
Entre 1997 e 2025, o peso médio das carcaças bovinas aumentou aproximadamente 0,5% ao ano. No mesmo período, os avanços médios foram de 0,9% ao ano para aves e de 0,8% para suínos.
A evolução é resultado, segundo o estudo, de investimentos em genética, nutrição, sanidade, manejo e aperfeiçoamento dos sistemas produtivos.
Oferta deve acompanhar expansão das carnes
Ao cruzar as projeções de oferta e demanda dos principais ingredientes utilizados na alimentação animal, o Rabobank concluiu que a disponibilidade de ração não deverá se transformar em obstáculo para o crescimento da produção brasileira de carnes nos próximos anos.
Mesmo adotando estimativas conservadoras para a participação de DDGS e sorgo nas dietas, o banco projeta equilíbrio confortável entre oferta e demanda de ingredientes até 2031.
Ao mesmo tempo, a procura por proteínas continua sustentando a expansão do setor. Na última década, a produção brasileira de carne bovina cresceu, em média, 3,3% ao ano. Na carne suína, o avanço médio foi de 4,6%, enquanto a produção de frango aumentou 2,1% ao ano.
Na avaliação do RaboResearch, a combinação entre aumento da oferta de ingredientes para ração, maior processamento de grãos dentro do País, crescimento dos biocombustíveis e expansão da produção de proteínas representa uma transformação estrutural do agronegócio brasileiro.
A tendência é que o Brasil deixe de atuar cada vez menos apenas como exportador de grãos e amplie a integração entre produção agrícola, processamento, alimentação animal e carnes, agregando valor às matérias-primas dentro do próprio País.








