Mato Grosso do Sul é o ponto de partida de uma tecnologia voltada ao fortalecimento da agricultura familiar que ganhou reconhecimento nacional. Desenvolvido pela Embrapa Agropecuária Oeste, o Sistema Agroecossistema de Produção Policultural Integrado de Alimentos (Appia) recebeu, em 2026, a certificação de Tecnologia Social da Fundação Banco do Brasil (FBB).
A certificação amplia a possibilidade de reprodução do modelo em comunidades quilombolas, assentamentos rurais, territórios indígenas e outras áreas ocupadas pela agricultura familiar em diferentes regiões do País.
O sistema reúne em uma mesma estratégia horticultura diversificada, manejo do solo, irrigação e piscicultura. A proposta busca garantir produção durante diferentes períodos do ano, geração contínua de renda e maior segurança alimentar para as famílias atendidas.
Além das técnicas produtivas, o Appia combina pesquisa científica, assistência técnica, planejamento das propriedades, gestão da produção e acesso aos mercados. A integração pretende tornar pequenas propriedades mais sustentáveis, resilientes e economicamente viáveis.
Experiência em comunidade quilombola
Em Mato Grosso do Sul, uma das experiências do projeto está na Comunidade Quilombola Furnas do Dionísio, em Jaraguari. A propriedade do agricultor familiar Sinval Martins dos Santos foi transformada em uma Unidade de Referência Tecnológica (URT).
Com a implantação das tecnologias e o acompanhamento técnico, a família conseguiu diversificar a produção e ampliar a oferta de alimentos, aliando o trabalho no campo ao planejamento e à gestão da atividade rural.
As URTs funcionam como uma espécie de laboratório a céu aberto. Nesses locais, agricultores podem acompanhar a implantação das tecnologias, observar os resultados e participar de cursos, oficinas, dias de campo e intercâmbios.
A implantação começa após um diagnóstico feito junto à comunidade para identificar potencialidades, dificuldades e necessidades locais. Os módulos iniciais ocupam áreas de aproximadamente 2,5 mil metros quadrados, estratégia adotada para reduzir custos e permitir que as tecnologias sejam incorporadas gradualmente pelas famílias.
Produção integrada
Na unidade instalada em Furnas do Dionísio, a infraestrutura inclui um tanque de piscicultura com capacidade para 10 mil litros de água, barracão multifuncional de 68 metros quadrados e sistema de irrigação por gotejamento destinado à horta e ao pomar.
O funcionamento ocorre de maneira integrada. Resíduos e efluentes da criação de peixes, por exemplo, são reaproveitados na compostagem e na adubação das áreas cultivadas. Restos vegetais, palhadas, bagaço de cana e esterco também são utilizados para produzir composto orgânico, diminuindo a necessidade de insumos externos.
A diversificação é outra característica do projeto. Entre os cultivos implantados estão mandioca, pimentas, maracujá, pepino, abobrinha, mamão, lima ácida Tahiti, berinjela, jiló, alface e abacate. Parte da produção pode ser comercializada e outra destinada ao consumo das próprias famílias.
Pesquisa e assistência técnica
Idealizador do Sistema Appia, o pesquisador Ivo de Sá Motta, da Embrapa Agropecuária Oeste, afirma que a proposta não se limita à adoção de novas técnicas de produção. O objetivo é trabalhar toda a cadeia, desde o planejamento e o uso sustentável dos recursos naturais até a organização dos produtores, agregação de valor e comercialização.
Segundo Motta, a assistência técnica, capacitação, financiamento, acesso à infraestrutura, organização social e apoio à comercialização precisam funcionar de forma conjunta para garantir a viabilidade econômica das famílias. O pesquisador também destaca a importância do associativismo e do cooperativismo para aumentar o poder de negociação dos agricultores.
Em Jaraguari, o acompanhamento das famílias também conta com a Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer). A assistência inclui orientação sobre práticas agrícolas, cursos, palestras e visitas técnicas destinadas a disseminar as experiências para outros produtores.
Com a certificação concedida pela Fundação Banco do Brasil, a expectativa é ampliar o alcance do Sistema Appia e levar a experiência desenvolvida em Mato Grosso do Sul para outras comunidades rurais. O reconhecimento é destinado a iniciativas que combinam conhecimento científico, participação comunitária e potencial de transformação social.









