Mato Grosso do Sul, que vem ampliando rapidamente a produção de etanol de milho, pode ser um dos Estados beneficiados por uma nova tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Uma levedura geneticamente modificada promete aumentar o aproveitamento do milho na fabricação do biocombustível e reduzir gastos das usinas com enzimas utilizadas no processo industrial.
O avanço tecnológico surge em um momento de expansão do setor em território sul-mato-grossense. Dados apresentados pela Biosul neste ano apontaram que o etanol de milho já representa 44% de todo o etanol produzido em Mato Grosso do Sul. Para a safra 2025/2026, a expectativa era de produção recorde de 5 bilhões de litros de etanol no Estado.
No primeiro semestre deste ano, Mato Grosso do Sul contava com unidades de etanol de milho em operação em Sidrolândia, Dourados e Maracaju, além de novos investimentos anunciados para municípios como Jaraguari e Nova Alvorada do Sul.
É nesse cenário que a tecnologia criada pela Unicamp ganha importância para a indústria local. O objetivo dos pesquisadores é resolver uma das principais limitações do processo de transformação do milho em etanol: o aproveitamento incompleto do amido presente no grão.
Levedura pode reduzir perdas na produção
Diferentemente da cana-de-açúcar, cujo açúcar pode ser fermentado diretamente, o principal componente do milho é o amido, formado por longas cadeias de moléculas de glicose. As leveduras normalmente utilizadas pelas usinas não conseguem processar esse material diretamente.
Antes da fermentação, portanto, o amido precisa ser quebrado em moléculas menores. O processo utiliza principalmente duas enzimas: a alfa-amilase e a glucoamilase.
A alfa-amilase convencional atua em temperaturas superiores a 90°C e fragmenta as grandes cadeias de amido. Já a glucoamilase completa a transformação e libera a glicose que posteriormente será convertida em álcool pelas leveduras.
O problema é que a fermentação ocorre em temperatura próxima de 30°C. Como a alfa-amilase tradicional não funciona adequadamente nessa condição, sua atuação precisa acontecer em uma etapa anterior e separada.
Mesmo com esse processo, pesquisadores estimam que cerca de 10% do amido pode deixar de ser convertido, reduzindo o rendimento final da matéria-prima.
Bioinformática ajudou a encontrar nova enzima
Para contornar a dificuldade, os cientistas utilizaram ferramentas de bioinformática e análise computacional de grandes bancos de dados genômicos em busca de uma alfa-amilase capaz de trabalhar em temperaturas próximas às da fermentação.
Segundo o pesquisador Marcelo Falsarella Carazzolle, encontrar uma enzima com essa característica foi um dos principais desafios, já que praticamente todas as alfa-amilases conhecidas atuam em temperaturas elevadas.
Após selecionar as enzimas consideradas mais promissoras, os pesquisadores introduziram os genes correspondentes em uma levedura industrial.
O resultado foi uma nova linhagem capaz de produzir tanto alfa-amilase quanto glucoamilase durante o próprio processo de fermentação.
Mesmo milho pode gerar mais etanol
Nos testes realizados em laboratório, a nova cepa foi comparada a uma levedura convencional. Os experimentos mostraram que o microrganismo modificado consegue dispensar completamente a adição externa de glucoamilase.
Além disso, a nova levedura conseguiu degradar parte do amido residual que normalmente não é aproveitado pela indústria.
Na prática, caso o desempenho seja reproduzido em escala industrial, uma usina poderá produzir mais etanol utilizando a mesma quantidade de milho, além de economizar com a compra de enzimas comerciais.
A tecnologia foi desenvolvida por pesquisadores do Laboratório de Genômica e Bioenergia do Instituto de Biologia da Unicamp, sob coordenação do professor Gonçalo Amarante Guimarães Pereira. A invenção foi protegida e licenciada para a Bioinfood, empresa-filha da universidade.
Próximo desafio é a escala industrial
Depois dos resultados obtidos em bancada, a pesquisa avança agora para uma etapa decisiva: verificar se a eficiência observada em laboratório será mantida nas condições de funcionamento das usinas.
A validação em maior escala permitirá avaliar principalmente quanto do amido que atualmente deixa de ser aproveitado poderá ser recuperado pela nova levedura.
A expectativa é que a inovação aumente a eficiência econômica do etanol de milho, justamente em um momento em que esse combustível amplia sua participação na matriz brasileira. Segundo a Unicamp, o etanol produzido a partir do cereal já representa aproximadamente 30% da produção nacional de etanol.
Para Mato Grosso do Sul, onde o setor já ganhou relevância industrial e recebe novos investimentos, uma eventual adoção da tecnologia poderá significar maior rendimento das plantas, redução de custos e melhor aproveitamento de uma das principais matérias-primas agrícolas produzidas no Estado.








