Às vésperas do início do plantio da nova safra, a soja voltou a alcançar a marca de R$ 150 a saca em Mato Grosso do Sul, registrando a melhor cotação em mais de três anos. No sul do Estado, negócios chegaram ao patamar nesta semana, enquanto em Campo Grande a oleaginosa foi comercializada por até R$ 147.
O avanço representa uma valorização próxima de 30% em apenas dois meses. No início de julho, a saca era negociada na faixa de R$ 115. A recuperação ocorre justamente quando os produtores se preparam para voltar às lavouras, já que o plantio da nova safra estará autorizado a partir de 16 de setembro.
Segundo o corretor Carlos Ronaldo Dávalo, da Granos Corretora, a principal explicação para a valorização no mercado disponível é a redução da oferta de soja destinada ao consumo interno, em meio ao volume elevado de exportações.
Apesar da cotação mais favorável, poucos produtores ainda possuem grãos da safra passada disponíveis para aproveitar a alta. Das 16,8 milhões de toneladas colhidas no último ciclo em Mato Grosso do Sul, a estimativa é de que somente 14% ainda estejam disponíveis.
Esse percentual corresponde a aproximadamente 2,35 milhões de toneladas, ou cerca de 40 milhões de sacas de 60 quilos. Parte significativa desse estoque, porém, já estaria nas mãos de intermediários e empresas do setor.
Safra nova já tem negócios
A valorização não está limitada à soja disponível para entrega imediata. O mercado futuro também vem apresentando preços mais atrativos para a safra que começará a ser plantada neste mês.
Contratos para entrega da soja em fevereiro de 2027 foram fechados nesta semana por aproximadamente R$ 134 a saca. Para maio, as projeções são ainda mais positivas.
Na Bolsa de Chicago, referência internacional para a commodity, o bushel para maio chegou a ser negociado por US$ 13,30, valor que, considerando câmbio e demais referências do mercado, equivale a aproximadamente R$ 140 por saca. Há cerca de dois meses, a cotação estava próxima de US$ 12,20 por bushel.
De acordo com Dávalo, as condições climáticas observadas nos Estados Unidos nos últimos meses, somadas ao cenário geopolítico internacional, ajudaram a sustentar a recuperação das cotações futuras.
Até agora, entretanto, uma eventual redução da produção provocada pelo El Niño ainda não estaria sendo incorporada de maneira significativa aos preços. Na avaliação do corretor, os efeitos do fenômeno climático podem ser menos severos do que as projeções indicavam meses atrás.
Mesmo assim, novas valorizações não estão descartadas para o início de 2027, justamente no período em que os produtores de Mato Grosso do Sul estarão colhendo a safra que começa a ser semeada neste mês.
Um dos fatores que pode favorecer os preços é a valorização internacional do trigo. Com a commodity em alta, produtores de outros países podem ampliar a área destinada ao cereal em detrimento da soja, reduzindo a oferta mundial da oleaginosa.
“A cotação mundial do trigo está em forte alta e, por isso, muito produtor mundo afora vai plantar trigo e deixar de plantar soja. Isso tende a provocar alta no preço para os produtores daqui no ano que vem”, avalia Dávalo.
Safra dos EUA preocupa mercado
Outro elemento que contribui para sustentar as cotações é a piora nas condições das lavouras norte-americanas.
O relatório mais recente de acompanhamento da safra dos Estados Unidos indicou nova deterioração das plantações de soja. A parcela das lavouras classificadas em condições boas ou excelentes caiu de 60% para 58% em uma semana.
A piora aumentou a preocupação dos agentes do mercado com o potencial produtivo norte-americano. Uma eventual quebra nos Estados Unidos tende a reduzir a oferta mundial e abrir espaço para valorização da soja brasileira.
Preço já passou dos R$ 200
Apesar da recuperação recente, a soja ainda está distante do recorde registrado há quatro anos. Em fevereiro de 2022, a saca chegou a R$ 206 em Mato Grosso do Sul, na maior cotação da série histórica.
Dois anos depois, em fevereiro de 2024, o cenário era completamente diferente, com a soja sendo negociada abaixo de R$ 100 em alguns momentos no Estado.
Desde então, os preços permaneceram durante boa parte do período próximos de R$ 120 por saca. A chegada aos R$ 150 agora representa uma mudança importante de patamar justamente na abertura de uma nova temporada agrícola.








