O governador Eduardo Riedel (Progressistas) vê na expansão da bioenergia uma oportunidade para Mato Grosso do Sul transformar investimentos bilionários em empregos permanentes, qualificação profissional e renda para os municípios. A estratégia é fazer com que o crescimento do setor sucroenergético ultrapasse os portões das usinas, estimulando também fornecedores, transportadoras, oficinas, prestadores de serviços e empresas sul-mato-grossenses.
Em 2025, Mato Grosso do Sul contava com 22 usinas de bioenergia em operação. Segundo a Biosul, o setor reunia mais de 33 mil empregos diretos e movimentava aproximadamente R$ 1,3 bilhão por ano em salários.
Para Riedel, mais do que números de produção e investimentos, a expansão representa oportunidades para famílias e jovens que encontram no setor possibilidades de formação e construção de uma carreira técnica.
A modernização das usinas também mudou o perfil das vagas. Atividades antes sustentadas principalmente pelo trabalho físico passaram a exigir profissionais capazes de operar equipamentos, acompanhar sistemas automatizados, realizar manutenção preventiva e controlar processos industriais.
“Essa mudança pode abrir oportunidades melhores, mas também cria uma distância entre quem conseguiu se qualificar e quem continua restrito a atividades temporárias ou menos remuneradas”, afirma o governador.
Cana ganha novos usos
A transformação ocorre porque a cana-de-açúcar deixou de gerar apenas açúcar e etanol. O aproveitamento de praticamente todos os elementos do processo industrial passou a abrir novas frentes econômicas.
O bagaço alimenta caldeiras para a geração de vapor e eletricidade. A vinhaça e a torta de filtro, antes tratadas principalmente como resíduos, começam a ser utilizadas para produção de biogás e biometano.
Esse processo amplia a demanda por operadores, eletricistas, mecânicos, técnicos de laboratório e especialistas em turbinas, caldeiras, automação e controle ambiental.
Fora das usinas, os reflexos chegam a oficinas, transportadoras, fornecedores de peças e equipamentos, construção civil, manutenção e outros serviços.
Na safra 2024/2025, Mato Grosso do Sul processou 48,5 milhões de toneladas de cana e produziu, considerando também o milho como matéria-prima, 4,2 bilhões de litros de etanol.
Manter uma estrutura desse porte funcionando exige mão de obra qualificada. Depois da extração do caldo, por exemplo, o bagaço da cana é utilizado nas caldeiras. O calor gera vapor, que movimenta turbinas e aciona geradores. Parte da energia abastece a própria indústria e o excedente pode ser enviado para a rede elétrica.
Pressão, temperatura, turbinas e sistemas automatizados precisam ser monitorados permanentemente.
Investimento de R$ 350 milhões em biometano
Uma das novas fronteiras da bioenergia em Mato Grosso do Sul está em Nova Alvorada do Sul.
A Atvos implanta no município uma unidade destinada à produção de biometano a partir da vinhaça e da torta de filtro. O investimento supera R$ 350 milhões e a capacidade prevista é de aproximadamente 28 milhões de metros cúbicos por safra.
A expectativa divulgada pela companhia é de que a unidade comece a operar até o fim de 2026.
Nos biodigestores, a matéria orgânica será decomposta para gerar biogás. Depois da purificação, o produto será transformado em biometano, combustível que pode substituir o diesel utilizado em caminhões e máquinas.
Segundo o vice-presidente de Operações da Atvos, Wilson Lucena, as atividades da companhia em Mato Grosso do Sul já respondem por aproximadamente 11 mil empregos diretos e indiretos.
A estimativa é de que a nova planta permita reduzir entre 40 mil e 50 mil toneladas de emissões de carbono por ano.
A empresa pretende utilizar o biometano principalmente na própria frota responsável pelo transporte de cana. A produção projetada poderá substituir aproximadamente 25 milhões de litros de diesel anualmente.
“A previsão é que 50% dos caminhões sejam operados com o biometano produzido aqui, reduzindo emissões e tornando nossa operação ainda mais sustentável”, afirma Lucena.
Antes mesmo de entrar em funcionamento, uma planta desse porte já movimenta construção, montagem, transporte, automação e fornecimento de equipamentos. Depois de pronta, a estrutura continua demandando operadores, mecânicos, eletricistas, peças, manutenção e profissionais de controle ambiental.
Riedel quer riqueza circulando nos municípios
Para o Governo do Estado, entretanto, atrair grandes investimentos é apenas uma parte da estratégia.
Riedel sustenta que os efeitos econômicos precisam chegar aos municípios por meio da contratação de trabalhadores e empresas locais.
“O ganho não pode ficar restrito ao balanço das grandes empresas. Para alcançar a economia local, os investimentos precisam contratar trabalhadores, comprar de fornecedores regionais e movimentar manutenção, peças, construção, transporte e serviços técnicos”, afirma o governador.
Quando equipamentos, serviços ou mão de obra especializada são contratados fora de Mato Grosso do Sul, parte dos recursos gerados pelos empreendimentos também deixa de circular nas cidades onde eles estão instalados.
A intenção é ampliar a presença de empresas sul-mato-grossenses nessa cadeia e fazer com que os investimentos deixem estruturas econômicas capazes de permanecer mesmo depois da conclusão das grandes obras.
Os números do mercado de trabalho mostram que a instalação de indústrias, isoladamente, não garante crescimento contínuo do emprego.
Nova Alvorada do Sul encerrou 2025 com saldo positivo de 1.151 empregos formais, um dos melhores desempenhos do Estado. No mesmo período, considerando todas as atividades econômicas, Rio Brilhante perdeu 272 postos de trabalho e Caarapó terminou o ano com saldo negativo de 59.
A diferença reforça a avaliação de que os impactos precisam ser medidos não apenas pelo valor investido ou pelo volume produzido.
Grandes obras podem empregar centenas de pessoas durante a implantação, mas parte dessas vagas desaparece quando os canteiros são desmontados.
“O desafio é transformar os períodos de investimento em uma base econômica mais duradoura: trabalhadores qualificados, fornecedores locais e atividades que continuem movimentando renda depois que os canteiros forem desmontados”, diz Riedel.
Emprego muda rotina de famílias
Na prática, o impacto dessas oportunidades pode ser observado na rotina de trabalhadores do setor.
Para Jane Rizzo Martinez, auxiliar de serviços gerais na área de Capina Química da Cocal, em Rio Brilhante, o emprego permitiu reorganizar a vida familiar.
Ela trabalha no turno A e o marido, empregado na mesma empresa, no turno B. Dessa maneira, o casal consegue se revezar nos cuidados com o filho que tem necessidades especiais. Os outros dois filhos também trabalham na usina.
“Trabalhar na Cocal representa estabilidade e a oportunidade de construir uma vida melhor para a minha família, principalmente para proporcionar o melhor ao meu filho, que tem necessidades especiais. Eu trabalho no turno A e meu esposo no turno B, então conseguimos nos revezar nos cuidados com ele. Além disso, meus outros dois filhos também trabalham na usina. Para mim, trabalhar é viver”, afirma.
Mesmo em uma função operacional, Jane precisou passar por capacitação. Ela recebeu treinamento de NR-31 e orientações para manuseio de materiais contaminados, utilização de máscaras e outros equipamentos de proteção.
“É um trabalho dinâmico, que me permite aprender todos os dias, conhecer pessoas e me desenvolver profissionalmente”, relata.
Desenvolvimento precisa ficar no Estado
Em Rio Brilhante e Caarapó, a bioenergia já ocupa espaço relevante na economia. Em Nova Alvorada do Sul, o avanço do biometano abre uma nova etapa, associada à substituição de combustíveis fósseis e ao reaproveitamento de produtos originados do próprio processo industrial.
Para Riedel, a transição deve reunir competitividade, sustentabilidade e desenvolvimento local.
Isso significa avaliar o avanço do setor não apenas pelos milhões de reais investidos ou pela capacidade das novas plantas, mas também pelos empregos que permanecerão depois das obras, pela qualificação dos trabalhadores e pela participação de empresas de Mato Grosso do Sul nos contratos gerados pelos empreendimentos.
Na casa de Jane, essa transformação já tem efeito concreto. O emprego garante estabilidade para que ela e o marido organizem os cuidados com o filho e, ao mesmo tempo, permite que a trabalhadora avance na qualificação profissional.
Quando o bagaço da cana vira eletricidade e a vinhaça retorna ao processo transformada em combustível, a bioenergia amplia as possibilidades econômicas da produção. Para o Estado, o próximo passo é garantir que essa riqueza também permaneça nos municípios, na forma de emprego, renda, empresas locais e novas perspectivas para as famílias.










