Pesquisadores da Embrapa e de instituições parceiras identificaram uma espécie de “impressão digital química” capaz de indicar a origem geográfica da tainha brasileira (Mugil liza) a partir de pequenas moléculas presentes no músculo do peixe. A descoberta pode ampliar a rastreabilidade do pescado e auxiliar no combate a fraudes comerciais.
O estudo combinou técnicas de Ressonância Magnética Nuclear de Hidrogênio (RMN de ¹H) e metabolômica para identificar biomarcadores químicos. Foram analisadas tainhas capturadas na Lagoa de Araruama e na Baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro, além do litoral de Santa Catarina, em diferentes períodos do ano.
De acordo com os pesquisadores, as diferenças encontradas na composição química do músculo refletem características do ambiente onde os peixes vivem, como salinidade, alimentação e condições fisiológicas.
Durante as análises, foram identificados 23 compostos químicos naturais, entre eles lactato, creatina, taurina e diferentes aminoácidos. As substâncias ajudam a revelar aspectos ligados ao metabolismo, gasto de energia, atividade muscular, alimentação e adaptação ambiental.
A comparação dos dados mostrou uma separação clara entre os perfis químicos das tainhas capturadas em cada região. Entre os compostos que mais contribuíram para essa diferenciação estão lactato, histidina, treonina, fenilalanina e ornitina.
Segundo a pesquisadora Fabíola Fogaça, da Embrapa Agroindústria de Alimentos, o método permite reconhecer um perfil metabólico específico do pescado, funcionando como uma assinatura capaz de indicar a procedência e contribuir para a autenticação dos produtos.
Lagoa de Araruama tem assinatura própria
Um dos resultados que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi o perfil das tainhas da Lagoa de Araruama. Considerada a maior lagoa hipersalina permanente do mundo, a região apresenta condições ambientais que provocam adaptações específicas nos peixes.
Essas características interferem em mecanismos como a osmorregulação — processo responsável pelo equilíbrio de água e sais minerais no organismo —, além do metabolismo energético e do uso de aminoácidos.
A assinatura química encontrada nas tainhas da Lagoa de Araruama poderá, inclusive, servir como base técnica para um pedido de Indicação Geográfica, na modalidade Denominação de Origem, junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Combate a fraudes
A tecnologia também pode ser utilizada para verificar se um pescado realmente veio da região informada no momento da venda. Com isso, pode ajudar a combater falsificação de procedência, substituição de espécies e outras irregularidades no mercado.
Para o pesquisador Luiz Colnago, da Embrapa Instrumentação, a identificação precisa da origem pode fortalecer a fiscalização, proteger consumidores e agregar valor aos produtos regionais.
O trabalho também utilizou ferramentas de inteligência artificial para auxiliar na análise e organização dos resultados, integrando recursos de metabolômica e ressonância magnética à tecnologia computacional.
Os resultados do estudo foram publicados no periódico científico internacional Fishes. A pesquisa envolveu cientistas da Embrapa Agroindústria de Alimentos, Embrapa Instrumentação, Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).









