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Nova cota dos EUA abre espaço para avanço da carne bovina de MS

Mato Grosso do Sul pode ampliar a presença da carne bovina no mercado dos Estados Unidos após o governo norte-americano decidir aumentar temporariamente a cota de importação de cortes bovinos magros. A medida começa a valer nesta terça-feira (1º) e terá duração de 90 dias, com a liberação adicional de 300 mil toneladas dentro do regime de tarifa reduzida, distribuídas em lotes mensais de 100 mil toneladas.

A decisão surge em um momento de expansão das vendas sul-mato-grossenses para os Estados Unidos. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), disponíveis na plataforma Comex Stat, mostram que as exportações de produtos bovinos de Mato Grosso do Sul para o mercado norte-americano movimentaram US$ 243,3 milhões entre janeiro e julho deste ano.

No mesmo período de 2025, as vendas haviam alcançado US$ 171,3 milhões. O aumento da receita foi de aproximadamente 42%.

Em volume, os embarques avançaram de 34,5 mil toneladas para 41,1 mil toneladas, crescimento de 18,9%. Os números incluem carnes bovinas congeladas, frescas ou refrigeradas, além de produtos salgados, em salmoura, secos ou defumados.

A carne desossada congelada concentra a maior parcela das negociações. De janeiro a julho deste ano, o produto respondeu por US$ 212,9 milhões das vendas de Mato Grosso do Sul aos Estados Unidos, contra US$ 156,4 milhões no mesmo intervalo do ano passado, avanço de 36,1%.

A carne bovina fresca ou refrigerada também apresentou forte crescimento, passando de US$ 4,6 milhões para US$ 23,2 milhões. Em sentido contrário, as vendas de carne salgada, em salmoura, seca ou defumada recuaram de US$ 10,3 milhões para US$ 7,2 milhões.

Janela de oportunidade

Na avaliação do analista de mercado exterior Aldo Barrigosse, a ampliação da cota norte-americana ocorre em um momento favorável para Mato Grosso do Sul, sobretudo diante das limitações enfrentadas pelo Brasil para expandir as vendas ao mercado chinês.

“Essa retirada dessa sobretaxa do governo americano, essa ampliação de mercado para nós, como oportunidade aqui para o Brasil e para MS, vem em bom momento”, afirmou.

Segundo o analista, Mato Grosso do Sul conta com frigoríficos habilitados para exportar aos Estados Unidos, o que permite ao Estado responder com rapidez a uma eventual elevação da procura.

“Isso beneficia diretamente essas plantas que já são exportadoras para o mercado americano”, destacou.

Barrigosse explica que os Estados Unidos têm forte demanda por cortes bovinos magros, especialmente utilizados na fabricação de carne moída.

“Dos produtos que Mato Grosso do Sul vende para os Estados Unidos, mais de 50% são carne bovina, principalmente os cortes mais magros, que são utilizados localmente para se fazer a carne moída”, disse.

Para ele, a própria estrutura pecuária de Mato Grosso do Sul coloca o Estado em posição favorável diante da nova oportunidade comercial.

“A gente está preparado para isso, tem frigorífico habilitado, tem carga, tem boi no pasto”, afirmou.

Diversificação de mercados

A ampliação das possibilidades de venda aos Estados Unidos também pode contribuir para reduzir a dependência brasileira do mercado chinês, atualmente o principal destino internacional da carne bovina produzida em Mato Grosso do Sul.

Entre janeiro e julho deste ano, as exportações de produtos bovinos sul-mato-grossenses para a China somaram US$ 586 milhões, contra US$ 318,5 milhões no mesmo período de 2025. O crescimento foi de 84%.

Em quantidade, os embarques para o mercado chinês subiram de 60,9 mil toneladas para 91,1 mil toneladas, alta de 49,7%.

Considerando todos os destinos, Mato Grosso do Sul exportou US$ 1,33 bilhão em produtos bovinos nos sete primeiros meses deste ano. No mesmo intervalo de 2025, haviam sido movimentados US$ 932,8 milhões, o que representa crescimento de 42,6%.

O volume exportado passou de 175,8 mil para 211,8 mil toneladas, aumento de 20,4%.

Para Barrigosse, o reforço da demanda norte-americana pode ajudar a compensar eventuais limitações em outros mercados.

“Essa oportunidade vem em um bom momento, vai beneficiar o mercado”, avaliou.

Preços exigem atenção

Apesar da perspectiva de aumento dos embarques, a ampliação da cota não significa necessariamente crescimento na mesma proporção da rentabilidade dos frigoríficos.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) considera a iniciativa uma oportunidade para o Brasil, mas destaca que haverá concorrência entre os países habilitados a utilizar a cota adicional.

Outro ponto de atenção é a regra estabelecida pelos Estados Unidos para os preços. A medida prevê o acompanhamento das vendas para verificar se a carne importada dentro da nova cota chega ao mercado norte-americano com valores 25% inferiores aos praticados atualmente.

Caso essa redução não seja observada, o governo norte-americano poderá suspender o saldo restante da quantidade adicional autorizada.

Barrigosse afirma que a exigência pode reduzir o valor médio obtido por tonelada.

“Existe uma expectativa de a gente vender mais carne magra como eles querem, só que uma carne que vai ser vendida teoricamente um pouco mais barato, no preço médio por tonelada”, ponderou.

Ainda assim, o analista considera que a possibilidade de ampliar a participação em um mercado de grande consumo pode compensar inicialmente a redução das margens.

A Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo) também avaliou positivamente a decisão e considera que a medida pode melhorar a competitividade da carne brasileira nos Estados Unidos durante os próximos três meses.

A ampliação da cota, porém, não representa uma retirada generalizada das tarifas incidentes sobre a carne brasileira. A decisão permite temporariamente que um volume maior de cortes magros seja comercializado dentro do regime de cota tarifária com alíquota reduzida.

As 300 mil toneladas adicionais serão disponibilizadas em três lotes de 100 mil toneladas durante o período de vigência da medida.

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