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Nossa Senhora Aparecida: três séculos de devoção à padroeira do Brasil

O Dia de Nossa Senhora Aparecida, celebrado nesta segunda-feira (12), marca uma história de fé que começou há mais de três séculos e conquistou milhões de brasileiros. Em 2026, completam-se 95 anos da cerimônia que celebrou a proclamação da santa como padroeira do Brasil, realizada no Rio de Janeiro, então capital federal.

O título foi concedido em 1930, por meio de um decreto assinado pelo papa Pio XI. A solenidade pública ocorreu no ano seguinte e reuniu cerca de 1 milhão de pessoas. Durante a celebração, o documento pontifício foi lido diante dos fiéis, e as bandeiras do Brasil e do Vaticano foram acrescentadas ao manto da imagem.

A origem dessa devoção remonta a 1717, quando Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso pescavam no Rio Paraíba do Sul, em São Paulo. Depois de várias tentativas sem sucesso, os três retiraram das águas uma imagem de barro da Virgem Maria, identificada como Nossa Senhora da Imaculada Conceição. O achado deu origem ao nome Aparecida.

Segundo a tradição católica, os pescadores passaram a relatar graças e milagres atribuídos à intercessão da Virgem. A história se espalhou e atraiu devotos de diferentes regiões, dando início às romarias que se tornariam uma das principais manifestações religiosas do país.

O dia 12 de outubro passou a ser feriado nacional em 1980, ano da primeira visita do papa João Paulo II ao Brasil. A devoção reúne cerca de 10 milhões de peregrinos anualmente no Santuário Nacional de Aparecida, em São Paulo, onde os fiéis renovam a fé e apresentam suas intenções à santa.

Para dom Vilson Dias de Oliveira, bispo emérito de Limeira (SP) e membro da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o significado da celebração ultrapassa as fronteiras brasileiras. Em carta, ele descreve Nossa Senhora Aparecida como um “farol espiritual” para o catolicismo e destaca sua ligação com os pobres e os pequenos.

“O achado da pequena imagem nas águas do Rio Paraíba do Sul não inaugurou apenas um capítulo na história da fé nacional, mas inscreveu no patrimônio da Igreja um acontecimento profundamente teológico: a manifestação da solicitude de Maria pelos pequenos, pelos descartados e pelos continentes que buscam a sua libertação e unidade no Evangelho de Cristo”, escreveu.

Na avaliação do religioso, a devoção também possui um significado particular para a América Latina, onde a fé popular convive com desigualdades históricas.

“O continente latino-americano, marcado por feridas históricas de desigualdade, mas iluminado por uma piedade popular fervorosa, encontra na Virgem de barro negro a expressão viva do rosto da própria Igreja continental.”

Dom Vilson ressalta que a imagem pequena e quebrada, retirada do rio por pescadores simples, representa a manifestação da grandeza divina por meio da fragilidade e da humildade. Para ele, essa história recorda que a evangelização “nasce do amor encarnado na realidade concreta dos povos e das suas culturas”.

Ao encerrar a carta, o bispo emérito relaciona a devoção aos desafios enfrentados pelas comunidades na atualidade e reforça a importância da união.

“Que as comunidades espalhadas por todo o Brasil e pelos países irmãos da América Latina não temam dar este passo audacioso. Diante dos desafios sociais, econômicos e espirituais que marcam o nosso tempo, a Virgem Aparecida nos recorda que Deus continua a realizar suas maiores maravilhas por meio dos humildes e organizados em comunidade”, concluiu.

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