Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente da República neste domingo (25), após superar Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. Com o resultado, o petista se torna o primeiro brasileiro escolhido quatro vezes pelo voto popular para comandar o País.
A vitória foi confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) às 21h08, no horário de Brasília, quando 97,69% da apuração estava concluída. Naquele momento, Lula somava 51,74% dos votos válidos, enquanto Flávio tinha 48,26%.
O resultado representa uma reversão do cenário registrado no primeiro turno. Em 4 de outubro, o candidato do PL terminou na liderança, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente.
A reação de Lula foi acompanhada por uma intensificação da campanha nas ruas e nas plataformas digitais. A mobilização envolveu aliados, militantes e a estrutura de comunicação do petista, que ampliou a presença nas redes sociais durante a etapa decisiva da disputa.
Entre as iniciativas esteve o canal “Exército do Lula”, coordenado pelo deputado André Janones (Rede-MG), que reuniu mais de 10 milhões de inscritos.
Às vésperas de completar 81 anos, na terça-feira (27), Lula acrescenta uma nova vitória à trajetória iniciada na disputa presidencial de 1989. Antes de 2026, ele havia vencido as eleições de 2002, 2006 e 2022.
O quarto mandato terá como desafios a negociação com um Congresso de forte presença oposicionista e o equilíbrio das contas públicas. O presidente também precisará conciliar as promessas de ampliação de programas sociais com as pressões sobre os gastos do governo.
Durante a campanha, Lula anunciou medidas como o Prospera MEI, destinado aos microempreendedores individuais, e o reajuste do Bolsa Família. Adversários criticaram o momento dos anúncios e classificaram as iniciativas como eleitoreiras.
Na reta final do terceiro mandato, o presidente participou da promulgação da emenda constitucional que substitui a escala de seis dias de trabalho por um de descanso pela jornada de cinco dias de trabalho e dois de folga. Na mesma cerimônia, o Congresso promulgou regras especiais de aposentadoria para agentes comunitários de saúde e de combate às endemias.
Outras decisões tomadas durante o período eleitoral foram o encerramento da cobrança de 20% de Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50, conhecida como “taxa das blusinhas”, e a edição da medida provisória que proibiu a exploração de apostas de quota fixa no País, abrangendo apostas esportivas e jogos on-line.
O terceiro governo também foi marcado pela aprovação da reforma tributária, pela ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e pelo reforço de políticas de habitação e transferência de renda. Nesse período, o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome.
Na economia, o presidente enfrentou críticas ao aumento das despesas públicas e manteve divergências com o Banco Central sobre a taxa básica de juros. No cenário internacional, precisou responder aos efeitos dos conflitos no Oriente Médio e às tarifas comerciais adotadas pelos Estados Unidos, em meio a embates com Donald Trump.
O mandato também acumulou crises políticas. As investigações sobre descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS, referentes ao período de 2019 a 2024, provocaram mudanças no comando do instituto e a saída de Carlos Lupi do Ministério da Previdência Social.
Outra frente de desgaste envolveu Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou investigações sobre suspeitas de tráfico de influência relacionadas ao Ministério da Saúde e à Dataprev. A defesa contesta a existência de elementos que sustentem as apurações.
Em junho, o senador Jaques Wagner (PT-BA) deixou a liderança do governo no Senado depois de se tornar alvo da Operação Compliance Zero, que investiga irregularidades envolvendo o Banco Master. A saída foi anunciada como uma decisão em comum acordo com Lula. Wagner nega irregularidades.
A trajetória do presidente começou longe de Brasília. Nascido em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, no interior de Pernambuco, Lula é o sétimo dos oito filhos dos lavradores Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Mello, conhecida como Dona Lindu.
Em dezembro de 1952, aos sete anos, viajou com a mãe e os irmãos para São Paulo em um caminhão pau de arara. A família se estabeleceu inicialmente no Guarujá, onde reencontrou o pai, que já havia constituído outra família.
Após a separação dos pais, Lula se mudou com a mãe e os irmãos para a capital paulista, em 1956. Eles passaram a viver em um cômodo nos fundos de um bar.
Antes de ingressar na indústria, trabalhou como vendedor ambulante, engraxate e office boy. Formou-se torneiro mecânico pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho ainda jovem.
Foi na região do ABC paulista, onde trabalhou na Indústria Villares, que se aproximou do movimento sindical por influência do irmão José, conhecido como Frei Chico. Ocupou diferentes funções até chegar à presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema.
A liderança nas greves dos metalúrgicos durante a ditadura militar deu projeção nacional ao sindicalista. Em 1980, Lula ficou preso por 31 dias com base na antiga Lei de Segurança Nacional.
Naquele mesmo ano, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, ao lado de sindicalistas, intelectuais, políticos e lideranças religiosas e rurais. Sua mulher à época, Marisa Letícia, costurou a primeira bandeira da legenda.
Lula também esteve na criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983, e participou da campanha das Diretas Já, que mobilizou manifestações pelo retorno das eleições diretas para presidente.
A estreia nas urnas ocorreu em 1982, quando disputou o governo de São Paulo e terminou em quarto lugar. Em 1986, foi eleito deputado federal e integrou a Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela Constituição de 1988.
Na primeira tentativa de chegar ao Planalto, em 1989, avançou ao segundo turno, mas perdeu para Fernando Collor de Mello. Voltou a concorrer em 1994 e 1998, sendo derrotado nas duas ocasiões por Fernando Henrique Cardoso.
A primeira vitória presidencial veio em 2002, quando recebeu 52,7 milhões de votos e derrotou José Serra no segundo turno. Em janeiro de 2003, tornou-se o primeiro operário a assumir a Presidência da República.
Nos primeiros governos, colocou o combate à pobreza e à desigualdade entre as prioridades. Programas como Fome Zero, Bolsa Família e ProUni marcaram sua gestão.
Reeleito em 2006, com 58,2 milhões de votos, após vencer Geraldo Alckmin, Lula ampliou iniciativas nas áreas de habitação e infraestrutura, com o Minha Casa, Minha Vida e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Ao encerrar o segundo mandato, em 2010, apoiou a eleição de Dilma Rousseff, sua sucessora.
O período também foi marcado pelo mensalão, revelado em 2005 a partir de denúncias de pagamentos a parlamentares em troca de apoio político. O escândalo provocou a saída de José Dirceu da Casa Civil e resultou em condenações no STF. Em pronunciamento à época, Lula afirmou que se sentia “traído” e reconheceu erros do partido e do governo.
Anos depois, já fora da Presidência, o petista foi atingido pela Operação Lava Jato, que investigou desvios em contratos da Petrobras. Em 2017, foi condenado pelo então juiz Sergio Moro por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá. Lula negou os crimes.
A condenação foi confirmada em segunda instância, e o ex-presidente acabou preso em abril de 2018. Permaneceu por 580 dias na sede da Polícia Federal em Curitiba e teve a candidatura presidencial daquele ano barrada pela Justiça Eleitoral.
Lula deixou a prisão em novembro de 2019, após o STF mudar o entendimento sobre o cumprimento de pena antes do trânsito em julgado. Em 2021, a anulação das condenações relacionadas à Lava Jato devolveu seus direitos políticos e permitiu seu retorno à disputa eleitoral.
Em 2022, venceu Jair Bolsonaro, pai de Flávio, no segundo turno, com 60,3 milhões de votos. Voltou ao Planalto em janeiro de 2023 e, agora, assegura mais um mandato.
Na vida pessoal, Lula enfrentou perdas familiares. Sua primeira mulher, Maria de Lourdes, com quem se casou em 1969, morreu grávida em 1971. Em 1974, casou-se com Marisa Letícia, que o acompanhou durante mais de quatro décadas e morreu em fevereiro de 2017, após um acidente vascular cerebral.
Com Marisa, teve Fábio Luís, Sandro Luís e Luís Cláudio. Também adotou Marcos Cláudio, filho dela de um relacionamento anterior, e é pai de Lurian, de sua relação com Miriam Cordeiro. Em maio de 2022, casou-se com a socióloga Rosângela da Silva, a Janja.
A saúde também exigiu cuidados ao longo dos anos. Lula foi diagnosticado com câncer na laringe em 2011 e superou a doença após tratamento. No terceiro mandato, passou por cirurgia no quadril, em 2023, sofreu uma queda no Palácio da Alvorada, em 2024, e apresentou um quadro de labirintite em 2025.
Neste ano, foi submetido à retirada de uma lesão cancerígena no couro cabeludo e realizou sessões de radioterapia.









