A uma semana da votação que definirá o próximo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) protagonizaram um debate marcado por acusações de corrupção, provocações e divergências sobre os rumos do País. O encontro ocorreu na noite deste domingo (18), nos estúdios da Band, e foi o primeiro confronto direto entre os candidatos nesta eleição.
Durante três blocos, os adversários apresentaram propostas para segurança pública, economia, saúde e produtividade. Também discutiram a relação do Brasil com os Estados Unidos, a redução da maioridade penal e investigações que envolvem o senador e o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
Na abertura, Flávio prometeu declarar “guerra ao narcoterrorismo” e classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho e as milícias como organizações narcoterroristas. O candidato defendeu penas mais duras e a retomada de áreas controladas por grupos criminosos.
“Eu vou recuperar cada metro. Eu vou recuperar cada rua. Eu vou recuperar cada bairro. Eu vou recuperar cada cidade. Eu vou recuperar cada território que foi tomado do povo brasileiro”, declarou.
O senador afirmou que os criminosos serão presos ou neutralizados pelas forças policiais e acusou o governo federal de favorecer o desencarceramento. Também mencionou a Lei Antifacção e disse que chefes dessas organizações poderão permanecer até 80 anos na prisão.
Lula respondeu que a Constituição atribui aos estados a responsabilidade pela segurança pública e defendeu a aprovação da proposta de emenda à Constituição que amplia a participação da União no setor. Segundo ele, a aprovação pelo Senado abrirá caminho para a criação do Ministério da Segurança Pública.
O presidente propôs uma atuação integrada entre União, estados e municípios e afirmou que o combate ao crime deve alcançar tanto os territórios ocupados por facções quanto os integrantes dessas organizações com maior poder econômico. “Para o trabalhador e para a comunidade, proteção. Para o bandido, prisão”, afirmou.
Na economia, Lula defendeu o estímulo ao crescimento por meio da circulação de renda, do fortalecimento dos pequenos negócios e de incentivos aos microempreendedores individuais. Também citou investimentos nas economias digital, verde e criativa e afirmou que o Brasil está próximo de recuperar o grau de investimento.
Flávio direcionou suas críticas ao custo de vida e ao endividamento. “A sua vida melhorou ou piorou? A comida está mais cara ou está mais barata?”, perguntou. O candidato atribuiu o avanço da dívida pública ao aumento dos gastos do governo e prometeu controlar as despesas para reduzir o endividamento federal e auxiliar famílias com contas atrasadas.
O senador também associou a queda dos juros futuros ao resultado do primeiro turno, no qual terminou à frente de Lula. Seu plano prevê cortes de gastos, embora parte das medidas ainda não tenha sido detalhada.
No confronto direto, Lula cobrou explicações sobre o voto de Flávio, em 2009, contra a ampliação da licença-maternidade de servidoras, quando o adversário era deputado estadual. O senador afirmou não ter “absolutamente nada contra as mulheres”, mas não explicou o voto.
Flávio, por sua vez, questionou o presidente sobre a empresária e lobista Roberta Luchsinger e as investigações envolvendo Lulinha. Os dois são investigados em três inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF) que apuram suspeitas de tráfico de influência em órgãos federais para favorecer empresários.
Roberta nega irregularidades e afirma manter uma relação de amizade com o filho do presidente. Em nota divulgada no sábado (17), o Palácio do Planalto declarou que Lula nunca manteve interlocução com a empresária, não recebeu demandas dela e desconhece as supostas tratativas mencionadas por ela. Também negou a existência de contrato do governo federal com Roberta.
As acusações se estenderam ao esquema de descontos indevidos em benefícios do INSS. Flávio responsabilizou o governo pela falta de proteção aos aposentados, enquanto Lula sustentou que as fraudes foram descobertas e enfrentadas durante sua gestão. A primeira investigação da Polícia Federal resultou no indiciamento de 48 pessoas.
Lula também questionou o pedido de R$ 134 milhões feito por Flávio ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro. A Polícia Federal investiga suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no financiamento da produção.
O senador, que nega irregularidades, é investigado no inquérito. Na sexta-feira (16), a PF solicitou mais 90 dias para concluir a apuração. Em entrevista concedida no mesmo dia, Flávio afirmou que o contrato de R$ 134 milhões não foi cumprido.
Outro tema do embate foi o fim da escala de trabalho 6×1. Questionado por Lula, Flávio disse que não pretende propor mudanças na medida. O candidato, que votou favoravelmente à proposta no Senado após se posicionar contra ela, afirmou ter mudado de opinião depois de ouvir trabalhadores durante a campanha.
Lula ainda perguntou se o adversário pretendia adotar no Brasil o modelo econômico do presidente argentino, Javier Milei. Flávio não respondeu diretamente e argumentou que governos de direita precisam corrigir problemas deixados por administrações de esquerda.
A saúde abriu o segundo bloco. Flávio propôs criar um prontuário eletrônico único, integrado pelo CPF, com informações das redes municipal, estadual, federal e privada. Também defendeu ampliar a telemedicina e o uso de inteligência artificial para acelerar consultas, exames e tratamentos.
O senador prometeu levar ao SUS o que chamou de “padrão Einstein” e reafirmou que pretende indicar o médico Claudio Luiz Lottenberg para o Ministério da Saúde. Lula questionou se a proposta representaria uma privatização do sistema e criticou a escolha, cobrando experiência em saúde pública.
Ao retomar o tema, o presidente citou a ampliação do número de médicos e iniciativas para reduzir o intervalo entre o diagnóstico e o tratamento do câncer. Também criticou a condução da pandemia de Covid-19 no governo Jair Bolsonaro.
Flávio reconheceu que a saúde não esteve entre as áreas de melhor resultado da administração do pai. Atribuiu parte das dificuldades à pandemia e afirmou que o ex-presidente “deu o seu melhor”.
Os candidatos divergiram ainda sobre a saída temporária de presos. Após Flávio mencionar crimes cometidos por detentos beneficiados pela medida, Lula defendeu o benefício para pessoas com bom comportamento como instrumento de ressocialização, mas afirmou que autores de crimes violentos não devem ter acesso a ele.
No terceiro bloco, a discussão se voltou à produtividade. Lula defendeu investimentos empresariais em inovação, citou a Nova Indústria Brasil e destacou a formação de profissionais em engenharia e matemática, além da expansão de setores como economia digital e data centers.
Flávio propôs tratar a internet como infraestrutura, ampliando a conexão de escolas, hospitais e aldeias indígenas. Também apresentou a ideia de uma plataforma para aproximar trabalhadores e empresas, com capacitação e financiamento pela Caixa para quem deseja abrir um negócio.
A relação com os Estados Unidos provocou novo confronto. Lula perguntou se o adversário entregaria aos americanos a exploração das terras raras brasileiras e acusou a família Bolsonaro de se subordinar aos interesses dos EUA.
Flávio negou ter atuado para que empresas brasileiras fossem atingidas por tarifas americanas e afirmou que suas viagens ao país tiveram o objetivo de defender produtos e negócios nacionais. Também defendeu a cooperação entre países das Américas no combate ao crime organizado e maior presença das Forças Armadas nas fronteiras.
Durante a discussão, Lula desafiou o senador a abrir suas contas bancárias e seus sigilos telefônicos antes da eleição, propondo que ambos se submetessem à análise. Flávio respondeu que não tem “absolutamente nada a esconder”.
Na rodada final, o candidato do PL defendeu a castração química de estupradores, penas mais severas para crimes como roubo de celular e a redução da maioridade penal. Ele apoia uma emenda à PEC da Segurança que estabelece responsabilização penal a partir dos 16 anos na maioria dos crimes e dos 14 em situações específicas.
Lula também passou a defender, nesta reta final da campanha, a redução da maioridade penal para 16 anos nos casos de crimes hediondos. No debate, mencionou medidas de bloqueio de celulares roubados e voltou a defender crédito, renegociação de dívidas e crescimento econômico.
Nas considerações finais, Lula pediu apoio à continuidade de seu governo, destacou a recuperação da indústria e defendeu empresas estatais fortes e produtivas. Sua fala começou sob interrupções, levando os mediadores a pedir que Flávio e a plateia permitissem que ele concluísse.
Flávio afirmou que não fará promessas que não possa cumprir, reiterou a proposta de criar o Ministério da Prosperidade e reforçou suas bandeiras de segurança pública. O senador disse que pretende colocar o cidadão no centro das decisões do governo e pediu votos para o segundo turno.
O encontro ocorreu em meio ao equilíbrio apontado pelas pesquisas. Levantamento Datafolha divulgado na quinta-feira (15) mostrou Flávio com 47% das intenções de voto e Lula com 45%. Na pesquisa Quaest de quarta-feira (14), o senador apareceu com 46%, ante 44% do presidente. Nos dois levantamentos, os candidatos estavam tecnicamente empatados.
No primeiro turno, Flávio terminou com aproximadamente 2,2 milhões de votos a mais que Lula, diferença de 1,87 ponto percentual. Agora, as campanhas intensificam a mobilização nas ruas e a participação em debates para conquistar os votos que decidirão a disputa no próximo domingo (25).









