Mato Grosso do Sul se destacou como o Estado com o menor custo operacional para a produção de soja entre sete dos principais produtores do País na safra 2025/2026. A eficiência dentro das propriedades, porém, não se transforma integralmente em maior rentabilidade por causa dos custos logísticos e da menor remuneração recebida pelo grão.
Estudo da Aegro Insights aponta que o Custo Operacional Efetivo (COE) médio da soja sul-mato-grossense ficou em R$ 4.772 por hectare, o menor entre Mato Grosso, Paraná, Goiás, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Bahia.
Ao mesmo tempo, os produtores de MS receberam, em média, R$ 113,32 pela saca, o segundo menor valor entre os estados analisados. Apenas Mato Grosso registrou preço inferior, de R$ 103,87.
O levantamento foi elaborado com base em milhares de notas fiscais emitidas nos estados pesquisados, posteriormente anonimizadas, além de informações sobre produção e comercialização.
Os dados revelam que o agricultor sul-mato-grossense consegue controlar os gastos e tornar a atividade mais eficiente dentro da fazenda, mas enfrenta dificuldades para converter essa vantagem em margens maiores.
Segundo o engenheiro-agrônomo Mathias Bergamin, coordenador de Inteligência de Mercado da Aegro e responsável pela pesquisa, sucessivas dificuldades enfrentadas pelo setor contribuíram para tornar o produtor do Estado mais cuidadoso na administração dos custos.
“Mato Grosso do Sul foi o mais eficiente e produziu a soja mais barata do Centro-Sul do Brasil. O produtor rural do Estado teve várias quebras de safra e, por falta de capital, é um produtor com perfil mais resiliente que otimizou os custos operacionais”, afirma.
LOGÍSTICA REDUZ COMPETITIVIDADE
A localização geográfica de Mato Grosso do Sul é apontada como um dos principais obstáculos para ampliar os ganhos obtidos com a eficiência nas lavouras.
A distância dos grandes portos brasileiros encarece tanto a chegada dos fertilizantes e demais insumos quanto o transporte da soja até os principais mercados consumidores e pontos de exportação.
“Em MS, Estado que está mais longe dos portos, todos os insumos chegam mais caros e o custo para escoar o grão também é maior. Então, o produtor sul-mato-grossense lida com a desvantagem logística”, explica Bergamin.
Essa diferença fica evidente na relação de troca entre soja e fertilizantes. Entre janeiro e 11 de agosto deste ano, uma tonelada de cloreto de potássio (KCl) custava o equivalente a 25,7 sacas de soja em Mato Grosso do Sul. No Rio Grande do Sul, eram necessárias 20,1 sacas.
Na comercialização, o impacto também aparece. Enquanto a média recebida pelos produtores de MS foi de R$ 113,32 por saca, no Rio Grande do Sul o valor chegou a R$ 123,81, diferença de R$ 10,49 por saca.
Parte da economia conquistada dentro da propriedade, portanto, acaba sendo absorvida pelos custos envolvidos na compra de insumos e no transporte da produção.
QUEM MAIS LUCRA NÃO É QUEM MAIS CORTA GASTOS
O estudo indica ainda que as propriedades mais rentáveis de Mato Grosso do Sul não foram necessariamente aquelas que reduziram mais os investimentos.
O diferencial esteve principalmente na capacidade de negociar melhores preços para os insumos sem prejudicar o manejo das lavouras.
Nas propriedades com os maiores índices de rentabilidade, os gastos com fungicidas foram 9,6% superiores à média estadual. Esse foi o único grupo de produtos no qual os agricultores mais rentáveis desembolsaram acima da média.
As principais economias ocorreram na aquisição de fertilizantes, diesel e no pagamento de juros.
Para Bergamin, os números mostram que simplesmente cortar gastos pode reduzir a produtividade e afetar o resultado final. A estratégia mais eficiente passa pela pesquisa de preços e pela negociação.
“Em MS, em relação à mediana de resultados de todas as fazendas pesquisadas no Estado, o produtor que mais lucrou não cortou insumos. Ou seja, não economizou no manejo da ferrugem asiática, por exemplo. Mas buscar cotações e comparar bem os insumos não é sorte, é competência. O produtor rural que compra bem tem consistência em todas as suas compras para ter mais eficiência”, afirma.
As diferenças nas negociações podem representar cifras relevantes. Em cada R$ 100 mil gastos com fungicidas, a variação chegou a R$ 26,7 mil. Para inseticidas, foi de R$ 22 mil, enquanto nos herbicidas atingiu R$ 18,4 mil.
Em uma fazenda de mil hectares, a soma dessas diferenças pode equivaler a uma economia de até 2,4 sacas de soja por hectare.
PRODUTIVIDADE BATE RECORDE
Além do menor custo operacional entre os estados pesquisados, Mato Grosso do Sul apresentou forte desempenho na produtividade.
Na safra 2025/2026, a média estadual chegou a 62,8 sacas por hectare, o melhor resultado da série histórica analisada e a maior produtividade dos últimos sete anos.
Os números, porém, mostram diferenças significativas entre as regiões do Estado.
No norte de Mato Grosso do Sul, a produtividade média alcançou 69,2 sacas por hectare, enquanto na região sul ficou em 52,2 sacas. A disparidade está ligada principalmente às condições de solo e à distribuição das chuvas.
O custo operacional também foi diferente. No norte, alcançou R$ 5.415 por hectare, enquanto no sul ficou em R$ 4.086.
Quando o cálculo considera o custo por saca efetivamente produzida, a diferença diminui. Foram R$ 81,37 por saca no norte e R$ 84,42 no sul.
A produtividade mais elevada também aumenta o ponto de equilíbrio na região norte. Conforme o levantamento, são necessárias 44,3 sacas por hectare para cobrir os custos, enquanto no sul o patamar é de 34,7 sacas.
“Existem diferentes realidades dentro de Mato Grosso do Sul, com grande variação de tipos de solos e de regimes de chuvas entre o norte e o sul do Estado. Essas realidades diferentes se mostram nos números. Existe uma discrepância significativa nos dados de custo de produção e de produtividade, principalmente, porque no sul houve falta de chuvas e essa também é uma região que teve muitos casos de recuperação judicial”, avalia Bergamin.
CLIMA É DESAFIO PARA A NOVA SAFRA
Depois de alcançar o menor custo entre os grandes produtores analisados, o desafio para Mato Grosso do Sul na safra 2026/2027 será preservar a eficiência diante das incertezas climáticas.
A possibilidade de irregularidade nas chuvas aumenta o risco de perdas em períodos decisivos para o desenvolvimento da soja, especialmente em regiões onde a cultura depende diretamente das precipitações.
Segundo Bergamin, o norte do Estado merece atenção especial diante da possibilidade de estiagem durante fases importantes do ciclo da cultura.
“Agora, um ponto de atenção é que estamos num ano com o fenômeno El Niño. O risco de ter irregularidades de chuvas e quebra de safra em MS é mais alto. O norte do Estado é a área que tem maior probabilidade de sofrer com estiagem em um momento-chave da cultura”, alerta.
Para o especialista, o cenário recomenda prudência na definição dos investimentos, mas não significa cortar indiscriminadamente os recursos destinados às lavouras.
“O clima é o que pode impedir o produtor de evoluir mais na safra 2026/2027. É preciso avaliar a fertilidade do solo, calcular investimentos com cautela e manter o custo operacional porque o risco é mais elevado em ano de El Niño. Mas a lavoura precisa de água e, se o produtor tiver capital próprio disponível para investir, pode ser uma boa alternativa adquirir sistemas de irrigação”, conclui.









