Em um cenário de custos elevados de produção, oscilações no preço das commodities e maior frequência de eventos climáticos extremos, produtores rurais de Mato Grosso do Sul têm encontrado nas forrageiras uma alternativa estratégica para aumentar a eficiência das lavouras e reduzir riscos. Tradicionalmente associadas à pecuária, essas plantas passaram a desempenhar papel cada vez mais importante na agricultura moderna, contribuindo para a saúde do solo, a produtividade e a rentabilidade das propriedades.
No Estado, onde a agricultura e a pecuária convivem de forma integrada em milhares de hectares, o uso de forrageiras como plantas de cobertura ou em sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) vem se consolidando como uma ferramenta para fortalecer a sustentabilidade econômica das fazendas.
Segundo o pesquisador da Embrapa Cerrados, Marcelo Ayres Carvalho, um dos principais desafios enfrentados pelos produtores está na condução da segunda safra de grãos. Embora a chamada “safrinha” seja utilizada para diluir custos fixos da propriedade, ela exige investimentos elevados em sementes, fertilizantes e defensivos. Quando há quebra de safra provocada por estiagem ou queda nos preços, o resultado pode ser prejuízo financeiro.
Nesse contexto, o especialista defende que substituir parte das áreas de segunda safra por forrageiras pode representar uma estratégia mais segura. Diferentemente das culturas destinadas à colheita de grãos, essas plantas demandam menor investimento inicial e ajudam a preparar o solo para a safra seguinte, sem comprometer os princípios do Sistema Plantio Direto.
Além de proteger o solo contra erosão, as forrageiras promovem descompactação, melhoram a infiltração de água, aumentam a ciclagem de nutrientes e auxiliam no controle de plantas invasoras, pragas, doenças e nematoides. Também contribuem para o sequestro de carbono e para a melhoria da estrutura física e biológica do solo.
Pesquisas da Embrapa apontam que áreas cultivadas com soja após o uso de forrageiras registram incremento médio de aproximadamente 15% na produtividade, o equivalente a cerca de 515 quilos por hectare, ou mais de oito sacas adicionais. O ganho está relacionado ao aumento da atividade biológica do solo e à maior disponibilidade de nutrientes para a cultura.
Do ponto de vista econômico, o retorno também é considerado expressivo. Enquanto o custo das sementes para implantação da cobertura forrageira varia entre US$ 9 e US$ 30 por hectare, o aumento de produtividade da soja pode gerar retorno estimado em cerca de US$ 198 por hectare.
Outro benefício destacado pelo pesquisador é a capacidade de espécies como as braquiárias de recuperar nutrientes presentes nas camadas mais profundas do solo, especialmente potássio e fósforo. Após a dessecação, esses nutrientes retornam gradualmente à superfície por meio da palhada, reduzindo a necessidade de fertilizantes e contribuindo para diminuir os custos de produção.
As leguminosas forrageiras também desempenham papel importante por meio da fixação biológica de nitrogênio, podendo incorporar entre 50 e mais de 250 quilos do nutriente por hectare ao ano. Elas podem ser utilizadas sozinhas ou em consórcio com gramíneas, além de permitirem o pastejo dos animais, agregando uma nova fonte de renda ao produtor.
Estudos ainda indicam que áreas manejadas com pastejo apresentam aumento médio de 18% na produtividade da soja, reforçando os benefícios dos sistemas integrados.
Para Mato Grosso do Sul, referência nacional na integração entre agricultura e pecuária, a adoção de forrageiras representa uma estratégia que alia ganhos econômicos e ambientais. Além de reduzir a vulnerabilidade diante das oscilações climáticas e do mercado, o investimento na saúde do solo fortalece a competitividade do agronegócio sul-mato-grossense e prepara as propriedades para ciclos produtivos mais eficientes e sustentáveis.










