O motor roncando sem parar nas lavouras é o som característico desta época do ano em Mato Grosso do Sul. No entanto, o que se ouve em algumas propriedades rurais de São Gabriel do Oeste é o silêncio incômodo das máquinas paradas. O motivo: a escassez de óleo diesel. O combustível, que move a potência do agronegócio sul-mato-grossense, está em falta nos postos da região, justamente no momento mais crítico do calendário agrícola.
Produtores relatam dificuldade para abastecer colheitadeiras, tratores e os caminhões que fazem o escoamento da produção. Em algumas localidades, a paralisação de atividades já é uma realidade, acendendo um alerta vermelho para a Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS).
“O maquinário não pode parar. Estamos colhendo a soja e, ao mesmo tempo, plantando o milho safrinha para aproveitar a janela ideal. Sem diesel, não há tecnologia que resolva. É um apagão logístico no campo”, desabafa um associado da região, que preferiu não se identificar.
O cenário é de tensão justamente quando os números do estado apontam para um avanço significativo nos trabalhos de campo. De acordo com o projeto SIGA-MS, executado pela Aprosoja/MS, a colheita da soja atingiu 63,3% da área estimada de 4,8 milhões de hectares. Só na primeira semana de março, mais de 930 mil hectares foram colhidos.
Paralelamente, o plantio do milho segunda safra, que depende diretamente dessa logística para ser viabilizado, já cobre 65,7% da área projetada, mas corre o risco de perder o ritmo. O atraso no abastecimento de diesel pode jogar contra o produtor, inviabilizando o cultivo dentro do período considerado mais seguro para fugir de perdas climáticas.
A crise no abastecimento não é apenas um problema local. Diretores da Aprosoja/MS em diversas regiões do estado confirmam o aperto: além da falta do produto, o preço disparou nos últimos dias. O bolso do produtor, que já opera com margens apertadas, sente o peso de um combustível cada vez mais caro e escasso.
A entidade aponta que a escalada das tensões geopolíticas no Oriente Médio, envolvendo potências como Estados Unidos, Israel e Irã, adiciona uma camada extra de preocupação e incerteza ao mercado de energia. No entanto, a associação faz um apelo por responsabilidade.
“Embora o cenário internacional gere apreensão, é preciso cautela para não transformarmos uma apreensão externa em um colapso interno. Movimentos especulativos que elevam artificialmente os preços ou seguram o produto nesse momento só prejudicam o setor”, alerta a entidade, em nota.
Para a Aprosoja/MS, o foco agora deve ser duplo: garantir que a cadeia de abastecimento de combustíveis funcione e que as distribuidoras cumpram rigorosamente os estoques mínimos obrigatórios. A prioridade máxima é evitar pressões artificiais sobre os custos de produção e assegurar que a safrinha, um dos pilares da economia estadual, não seja comprometida por fatores fora da porteira.
Enquanto isso, em São Gabriel do Oeste e em outras cidades do norte do estado, o produtor rural faz as contas e enfrenta filas, na esperança de que o próximo caminhão-tanque chegue antes que a janela ideal para o plantio se feche de vez.
Tony Franco











