Presa na sexta-feira (11) durante investigação sobre supostos desvios de recursos da Santa Casa de Campo Grande, a presidente afastada da instituição, Alir Terra Lima Nery, já tentou ingressar na política e declarou patrimônio superior a R$ 1 milhão à Justiça Eleitoral.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que Alir concorreu ao cargo de deputada federal por Mato Grosso do Sul nas eleições de 2014, pelo então PR, atual PL. Na disputa, recebeu 1.948 votos e não foi eleita.
Naquele ano, a advogada informou possuir patrimônio de R$ 1.053.961,97. A maior parte dos bens declarados era formada por imóveis, entre eles um apartamento no Royal Park, uma sala comercial no Prime Office e uma residência no bairro Taveirópolis, em Campo Grande.
O escritório localizado no Prime Office, inclusive, está entre os endereços que posteriormente foram alvo de buscas realizadas no âmbito da investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco).
Na relação de bens apresentada à Justiça Eleitoral, Alir também declarou R$ 60 mil em joias, além de dois veículos. Um Honda Civic, ano 2013, foi avaliado na época em R$ 88 mil, enquanto um Volkswagen Gol, ano 2010, foi declarado por R$ 37,7 mil.
Outros R$ 60 mil correspondiam a valores mantidos em contas bancárias.
Compra de imóveis entrou na mira da investigação
As investigações também passaram a analisar aquisições imobiliárias realizadas por Alir nos últimos anos. Segundo o Gaeco, duas propriedades foram compradas por um total de R$ 850 mil durante período em que empresas relacionadas a pessoas próximas à então dirigente mantinham contratos milionários com a Santa Casa.
Um dos negócios ocorreu em janeiro de 2025, quando Alir adquiriu uma casa no bairro Monte Castelo por R$ 400 mil. Conforme os investigadores, o pagamento teria sido realizado integralmente em espécie, circunstância considerada relevante na apuração da origem dos recursos.
Outro imóvel havia sido comprado em julho de 2021, no Jardim Autonomista, por R$ 450 mil. De acordo com os documentos reunidos na investigação, o valor foi pago por meio de três transferências bancárias, de R$ 22,5 mil, R$ 31,5 mil e R$ 396 mil.
Em relatório, o Gaeco afirma que a evolução patrimonial de Alir e do advogado Paulo da Cruz Duarte teria ocorrido paralelamente à criação de empresas, assinatura de contratos e transferência de valores da Santa Casa Saúde.
“Assim, a análise preliminar revela que a ampliação patrimonial de Paulo da Cruz Duarte e Alir Terra Lima ocorreu paralelamente à constituição das empresas, à celebração dos contratos e à transferência de valores milionários pela Santa Casa Saúde”, registra trecho da investigação.
Empresas receberam R$ 9,6 milhões
Outro ponto levantado na Operação Antidotum envolve aproximadamente R$ 9,6 milhões repassados pela Santa Casa Saúde a empresas ligadas a Paulo da Cruz Duarte, apontado na investigação como sócio particular de Alir.
Segundo o Ministério Público, os pagamentos ocorreram enquanto o plano de saúde ligado à instituição acumulava prejuízo superior a R$ 3,5 milhões.
A apuração identificou nove empresas registradas em nome de Paulo da Cruz, sendo que ao menos cinco teriam mantido contratos com a Santa Casa.
Para os investigadores, o conjunto de empresas teria permitido concentrar diferentes atividades relacionadas ao plano de saúde, incluindo serviços jurídicos, administrativos, comerciais, financeiros, assistenciais e tecnológicos.
O Ministério Público sustenta que essas contratações teriam beneficiado interesses particulares em prejuízo da situação financeira da instituição. As suspeitas ainda são objeto de investigação e deverão ser contestadas pelas defesas no curso do processo.
Após audiência de custódia, o advogado Murilo Marques, que representa Alir, afirmou que a ex-dirigente nega irregularidades e contesta as acusações.
“Alir está bem, está indignada com as imputações. Enquanto presidente da Santa Casa, ela não realiza nenhum pagamento, não é ordenadora de despesa, então ela está bem confusa com todas as acusações. A gente está começando a preparar a defesa dela para, no início da semana, fazer o pedido de revogação da prisão preventiva”, declarou.
A defesa sustenta, portanto, que Alir não tinha atribuição direta para ordenar os pagamentos questionados pela investigação.
O escritório de Paulo da Cruz Duarte também foi procurado anteriormente para comentar as acusações relacionadas aos contratos e aos repasses citados no relatório, mas não apresentou manifestação até então.









