As lavouras de soja e algodão do sul de Mato Grosso do Sul estão entre as mais vulneráveis aos possíveis efeitos do El Niño. Uma análise da Embrapa, elaborada para o acompanhamento técnico do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), aponta Maracaju e Aral Moreira como municípios que podem enfrentar dificuldades no plantio e na colheita.
O período de maior impacto considerado pelo estudo vai de setembro a dezembro. A irregularidade das chuvas pode atrasar a semeadura, enquanto temperaturas elevadas e ondas de calor representam riscos adicionais ao crescimento das plantas e à produtividade.
Mesmo antes da avaliação dos efeitos mais recentes do fenômeno, o boletim Casa Rural da Agricultura de outubro, elaborado pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), já apresentava uma perspectiva de redução na produção estadual de soja.
Para a safra 2026/2027, a estimativa é de 15,3 milhões de toneladas, com produtividade média de 52,4 sacas por hectare. O volume projetado representa uma queda de 13,2% em relação ao ciclo anterior.
A expectativa de menor produção ocorre apesar da ampliação da área cultivada. A soja deve ocupar 4,87 milhões de hectares no Estado, crescimento de 5,5% na comparação com a safra passada.
O levantamento acompanhado pelo Mapa analisou possíveis impactos no Centro-Oeste, com atenção a Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Segundo a Embrapa, o atraso no início da estação chuvosa pode impedir a semeadura no período mais adequado, comprometendo tanto o rendimento das lavouras quanto a qualidade dos produtos.
No sul de Mato Grosso do Sul, especialmente em Maracaju e Aral Moreira, a avaliação também indica possibilidade de dificuldades na colheita, apodrecimento de frutos e perda de qualidade. Já no nordeste do Estado, onde a semeadura está prevista para dezembro, o efeito do atraso das chuvas tende a ser menor.
O avanço do plantio da soja reflete as diferenças nas condições de umidade entre as regiões. Conforme dados divulgados pela Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja-MS) no início de outubro, a semeadura alcançou 18% da área monitorada.
Na região Sul, os trabalhos chegaram a 25,3%, enquanto no Norte o índice permanecia abaixo de 0,4%. A regularização das chuvas é apontada como necessária para acelerar as operações nas áreas com menor disponibilidade de água no solo.
“No Centro-Sul, a condição de umidade tem permitido uma evolução mais rápida das operações, enquanto a região Norte ainda depende de uma regularização das chuvas”, explicou o analista técnico da Aprosoja-MS, Lucas Santana.
Segundo ele, acompanhar a umidade do solo e as previsões meteorológicas ajuda o produtor a definir o ritmo do plantio e a reduzir os riscos durante a implantação das lavouras.
A associação também identificou episódios de chuva excessiva concentrada em curtos períodos durante a semeadura. Uma das consequências é o selamento superficial do solo, que dificulta a emergência das plântulas e pode prejudicar o estabelecimento da cultura.
No algodão, a Associação Sul-mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampasul) acompanha as possíveis consequências do El Niño desde o inverno. O diretor executivo da entidade, Adão Hoffmann, afirmou que mudanças nas condições meteorológicas já foram percebidas ao longo do ano.
“A gente já tem sentido algumas diferenças climáticas já no decorrer deste ano. O inverno, por exemplo, foi mais chuvoso”, comentou.
O plantio do algodão da safra 2026/2027 está previsto para começar em dezembro. Os produtores observam principalmente a possibilidade de um veranico em novembro, antes da semeadura, e de uma interrupção antecipada das chuvas a partir de março de 2027.
Caso a redução das precipitações ocorra antes do esperado, o desenvolvimento das lavouras na etapa final do ciclo poderá ser comprometido. Hoffmann ressaltou, porém, que ainda não é possível dimensionar eventuais perdas.
“Caso isso ocorra, o final do ciclo do algodão pode ser impactado. Mas ainda é precoce e são todas projeções. Não temos como ainda falar em possíveis danos. Contudo, o produtor vem tomando os devidos cuidados para correr menos risco”, afirmou.
A pecuária também exige atenção, especialmente em áreas do Pantanal e da região central do Estado sujeitas ao excesso de chuva. O estudo recomenda restringir o pastejo e a circulação de máquinas quando o solo estiver saturado, além de proteger áreas de drenagem natural, nascentes, margens de cursos d’água e locais vulneráveis à erosão.
Outra orientação da Embrapa é manter registros de precipitação, produção de forragem, lotação das pastagens, consumo de suplementos, peso e condição corporal dos animais. Essas informações podem ajudar na revisão do planejamento e nas decisões de manejo.
Enquanto os produtores acompanham os riscos para o próximo ciclo, a colheita do milho de segunda safra 2025/2026 está praticamente concluída. Dados do Projeto Siga-MS, atualizados até 2 de outubro, mostram que os trabalhos alcançaram 99,96% da área plantada.
A produtividade estimada é de 122,79 sacas por hectare, aumento de 13,3% em relação ao ciclo anterior. A produção prevista chega a 16,253 milhões de toneladas, crescimento de 16,7% na comparação com a safra 2024/2025.
“Na maior parte do Estado, a operação está encerrada. Restam apenas áreas pontuais nas regiões Sul-Fronteira e Sudoeste, que ainda seguem em processo de colheita”, informou a Aprosoja-MS.









