A redução das compras de carne bovina pela China já começa a provocar reflexos na cadeia produtiva de Mato Grosso do Sul. Frigoríficos com maior dependência do mercado chinês passaram a adotar uma postura mais cautelosa na aquisição de gado, acendendo um sinal de alerta entre os pecuaristas do Estado.
Segundo a Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul), o movimento ainda não é generalizado, mas já é percebido em algumas regiões. A preocupação surgiu após a indústria considerar praticamente esgotada a cota de exportação de carne bovina destinada ao mercado chinês em 2026.
Dados do painel de monitoramento da Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems) mostram que o Estado exportou US$ 3,829 bilhões até junho deste ano. Desse total, US$ 1,353 bilhão teve a China como destino, o equivalente a 35,3% das exportações sul-mato-grossenses.
Entre os principais produtos vendidos ao país asiático está a carne bovina desossada congelada, que movimentou US$ 511,8 milhões no primeiro semestre, representando 37,81% das exportações estaduais para a China. O volume embarcado alcançou 79,8 mil toneladas, crescimento de 68,42% em relação ao mesmo período do ano passado.
O presidente da Acrissul, Guilherme Bumlai, afirma que parte dos frigoríficos já reduziu o ritmo de compra de animais, especialmente aqueles mais dependentes das exportações para a China.
Segundo ele, apesar da pressão exercida pela indústria, muitos produtores ainda resistem aos valores ofertados. A entidade ressalta, no entanto, que a situação segue sendo monitorada, já que o comportamento não é uniforme em todo o Estado.
O cenário é consequência da decisão da China de limitar a importação de carne bovina brasileira a 1,106 milhão de toneladas em 2026. O volume que ultrapassar essa cota estará sujeito a uma sobretaxa de 55%, que, somada à tarifa regular de aproximadamente 12%, pode elevar a tributação para até 67%, tornando inviável a comercialização da maior parte dos cortes.
Outro fator que preocupa o setor é o tempo de transporte. Como a carne leva entre 40 e 60 dias para chegar ao destino, a indústria avalia que a cota já foi preenchida — ou está muito próxima disso — considerando as cargas que ainda estão em trânsito, mesmo sem confirmação oficial do governo chinês.
O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, destaca que a redução representa um impacto significativo para o setor exportador. No ano passado, o Brasil embarcou cerca de 1,7 milhão de toneladas para a China, enquanto neste ano a cota ficou limitada a pouco mais de 1,1 milhão de toneladas.
Como o mercado chinês absorve aproximadamente metade das exportações brasileiras de carne bovina, Perosa afirma que não existe outro comprador capaz de substituir esse volume de forma imediata.
A consequência já é percebida na indústria frigorífica. Empresas que possuem uma carteira mais diversificada de mercados reduziram parcialmente a produção, enquanto plantas com maior dependência da China diminuíram o ritmo de operação e, em alguns casos, recorreram à concessão de férias coletivas.
Em Mato Grosso do Sul, a expectativa é de que a menor demanda exerça pressão sobre o preço da arroba no curto prazo. Ainda assim, a Acrissul avalia que é cedo para afirmar que haverá uma queda consistente, já que isso dependerá da duração das restrições e da capacidade de redirecionar as exportações para outros mercados.
Perosa também reconhece que a arroba apresentou recuo nos últimos dias em razão da desaceleração da indústria, mas acredita que os preços tendem a encontrar um novo patamar de equilíbrio, sem perspectiva de um colapso no mercado.
Apesar do risco de aumento da oferta de carne no mercado interno, a Acrissul considera que o cenário não deve ser tratado como uma crise inevitável. Parte da produção poderá ser absorvida pelo consumo doméstico e outra parte redirecionada para mercados internacionais, embora esse processo dependa de negociações comerciais e habilitações sanitárias.
Entre os mercados considerados estratégicos pela Abiec estão Vietnã, Japão, Coreia do Sul e Turquia. O Vietnã foi aberto recentemente para a carne brasileira, enquanto Japão e Coreia do Sul seguem em processo de negociação para ampliação do acesso.
A entidade também trabalha junto ao Ministério da Agricultura para ampliar a presença da carne brasileira em novos destinos e busca avanços nas tratativas com a União Europeia, que ainda mantém restrições relacionadas aos mecanismos de fiscalização e rastreabilidade.
Enquanto o setor busca alternativas, a incerteza já afeta o planejamento dos produtores. Segundo a Acrissul, muitos pecuaristas tendem a adiar investimentos voltados à expansão da produção até que haja maior previsibilidade sobre o comportamento do mercado internacional.
Para a entidade, o episódio evidencia a elevada dependência de Mato Grosso do Sul em relação ao mercado chinês e reforça a necessidade de diversificar os destinos das exportações para reduzir a vulnerabilidade da cadeia produtiva diante de mudanças na política comercial do principal comprador da carne bovina brasileira.










