A expansão da indústria de celulose transformou a atividade florestal em Mato Grosso do Sul nas últimas duas décadas. A área cultivada com eucalipto passou de 119 mil hectares, em 2006, para uma estimativa de 2,1 milhões de hectares em 2026, crescimento de aproximadamente 1.665%. Com isso, a extensão dos plantios ficou quase 18 vezes maior no período.
A perspectiva é de continuidade desse avanço. A Associação Sul-Mato-Grossense dos Produtores e Consumidores de Florestas Plantadas (Reflore MS) calcula que o Estado poderá chegar a 2,5 milhões de hectares até 2032, com a incorporação de mais 400 mil hectares à base florestal estimada atualmente.
O levantamento mais recente do Sistema de Informação Geográfica do Agronegócio (SIGA-MS), referente à safra 2025/2026, identificou cerca de 1,98 milhão de hectares de eucalipto. Já a estimativa de 2,1 milhões inclui plantios recentes que ainda não foram incorporados ao monitoramento semestral da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS), utilizado como referência pela Reflore MS.
Conforme o presidente da entidade, Luiz Calvo Ramires Junior, a diferença acompanha a dinâmica da atividade, com áreas sendo colhidas e replantadas continuamente. A ampliação também está relacionada à necessidade de assegurar matéria-prima para os investimentos industriais previstos e em execução.
A instalação de grandes fábricas foi decisiva para esse crescimento. Em 2009, Três Lagoas recebeu a unidade da Votorantim Celulose e Papel (VCP), hoje Suzano. Depois vieram a Eldorado Brasil, que começou a operar em 2012, e a segunda linha da então Fibria, atual Suzano, inaugurada em 2017.
Em julho de 2024, a entrada em operação da fábrica da Suzano em Ribas do Rio Pardo ampliou novamente a demanda por madeira. A instalação da Arauco, em Inocência, e o projeto da Bracell, em Bataguassu, representam uma nova etapa de expansão do setor.
Leste concentra a produção
Os plantios estão concentrados principalmente no leste sul-mato-grossense, região conhecida como Vale da Celulose, onde estão localizados os maiores empreendimentos industriais da cadeia.
Ribas do Rio Pardo lidera o levantamento do SIGA-MS, com 569,3 mil hectares, equivalentes a 28,68% da área registrada no Estado. Três Lagoas aparece na sequência, com 352,9 mil hectares, ou 17,78%, seguida por Água Clara, com 190,5 mil hectares e participação de 9,60%.
Brasilândia, Inocência, Santa Rita do Pardo e Selvíria também possuem mais de 100 mil hectares de eucalipto cada. Campo Grande, Aparecida do Taboado e Nova Andradina completam a relação dos dez municípios com maiores áreas cultivadas.
Juntos, esses municípios reúnem aproximadamente 1,78 milhão de hectares, perto de 90% do total identificado na safra 2025/2026. Ramires Junior destaca que a expansão também começa a ganhar espaço em localidades como Bataguassu.
Mercado vai além da celulose
Embora a fabricação de celulose seja o principal destino da madeira produzida em Mato Grosso do Sul, as florestas comerciais abastecem outras atividades, como siderurgia, produção de painéis e geração de energia com biomassa.
De acordo com o presidente da Reflore MS, entre 100 mil e 110 mil hectares de eucalipto são destinados à produção de carvão vegetal. Em Água Clara, a fabricante de painéis Greenplac mantém uma base florestal estimada entre 20 mil e 22 mil hectares.
Outra frente de consumo surge com as usinas de etanol de milho, que utilizam cavacos de eucalipto como combustível nas caldeiras do processo industrial. Para a entidade, o crescimento dessa atividade amplia as possibilidades de comercialização e diversifica os compradores da madeira.
Atualmente, os segmentos que utilizam esse insumo no Estado consomem aproximadamente 35 milhões de metros cúbicos por ano. A previsão da Reflore MS é que os projetos da Arauco e da Bracell acrescentem mais de 20 milhões de metros cúbicos anuais a essa demanda quando entrarem em operação.
Esse cenário pode abrir espaço para produtores florestais independentes, sobretudo por meio de contratos de fornecimento. A viabilidade, porém, depende de planejamento dos plantios e de condições adequadas para transportar a produção até as unidades industriais.
Novas fábricas sustentam projeções
A Reflore MS estima que Arauco e Bracell precisarão, juntas, de 700 mil a 900 mil hectares de florestas em produção. A necessidade considera tanto áreas já cultivadas quanto novos plantios.
A projeção de alcançar 2,5 milhões de hectares até 2032 poderá ser superada caso sejam confirmadas novas linhas de produção nas fábricas de celulose. Na avaliação de Ramires Junior, cada linha industrial de grande porte demanda, em média, de 300 mil a 400 mil hectares de florestas produtivas.
Mesmo com o avanço, os plantios florestais ocupam pouco mais de 5% do território sul-mato-grossense. Conforme os dados apresentados pela entidade, a extensão corresponde a cerca de 40% da área cultivada com soja.
Expansão ocorre sobre pastagens
O crescimento do eucalipto acompanha a valorização das terras e a presença de diferentes atividades agropecuárias, entre elas soja, milho, cana-de-açúcar e citricultura.
Para Ramires Junior, essas cadeias podem se complementar, pois possuem necessidades distintas de solo, clima, relevo e infraestrutura. Ele afirma que os novos plantios de eucalipto têm ocupado principalmente antigas pastagens, muitas delas degradadas, em terrenos arenosos e de baixa fertilidade natural.
A atividade oferece aos proprietários rurais alternativas de receita por meio de arrendamento, parcerias e programas de fomento florestal.
O dirigente sustenta que, com correção e manejo adequados do solo, as florestas comerciais podem ampliar a cobertura vegetal, reduzir processos erosivos e favorecer o acúmulo de matéria orgânica.
Ele também ressalta que as principais empresas adotam certificações internacionais, como FSC e PEFC/Cerflor, com critérios ambientais, sociais e econômicos e auditorias independentes. Os empreendimentos estão sujeitos ainda à legislação e ao licenciamento ambiental.
Madeira para móveis exige outra estrutura
Apesar das perspectivas de crescimento, a diversificação para atividades como serrarias e fabricação de móveis ainda enfrenta obstáculos.
Os plantios destinados à celulose, ao carvão vegetal e à biomassa utilizam ciclos de aproximadamente seis a sete anos. Para abastecer serrarias, o período necessário é maior, de 15 a 20 anos, com desbastes intermediários.
Além do tempo de cultivo, a atividade depende de serrarias modernas, estruturas de secagem e mercado consumidor consolidado. A distância dos principais centros compradores também pesa nos custos e reduz a competitividade da produção estadual.
Na avaliação do presidente da Reflore MS, incentivos à industrialização local podem ajudar a desenvolver esse mercado. O desafio é aproveitar a expansão da base florestal para ampliar os usos da madeira e criar oportunidades em outros segmentos da indústria sul-mato-grossense.








