Documentos que embasaram a Operação Antidotum revelam que o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) investiga uma série de contratos firmados pela Santa Casa de Campo Grande e pela operadora Santa Casa Saúde. Entre as suspeitas estão pagamentos sem comprovação integral dos serviços, possível simulação de concorrência e resistência na entrega de documentos aos órgãos de fiscalização.
A investigação, conduzida pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc), teve início após denúncia encaminhada à 29ª Promotoria de Justiça de Campo Grande e resultou na abertura de procedimento criminal. A operação foi deflagrada em 11 de setembro e levou à prisão preventiva de seis investigados.
No centro da apuração está a gestão de Alir Terra Lima, que assumiu a presidência da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande em fevereiro de 2023. Segundo o MPMS, ela também exercia influência sobre decisões envolvendo a operadora Santa Casa Saúde.
Uma das principais frentes da investigação envolve a Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços Ltda., contratada para digitalizar o acervo documental do hospital. O trabalho previa organização, preparação, digitalização, indexação e armazenamento de prontuários médicos e outros documentos administrativos.
A fiscalização do serviço passava pelo Serviço de Arquivo Médico e Estatística (Same), coordenado por Monique Gregório de Oliveira, uma das investigadas presas na operação.
Segundo o Ministério Público, o setor reunia informações necessárias para verificar quantas páginas haviam sido efetivamente digitalizadas e comparar a produção com os valores cobrados pela empresa.
O Conselho Fiscal da Santa Casa chegou a solicitar, em março e abril de 2025, informações sobre os critérios utilizados para medir e fiscalizar os serviços. Conforme os investigadores, os pedidos não foram respondidos.
A ausência dos dados teria dificultado a conferência dos lotes digitalizados, períodos de execução e correspondência entre o serviço realizado e as notas fiscais pagas.
Contratação entrou na mira
O MPMS também passou a investigar a forma como a Redvalue foi contratada. De acordo com o Gecoc, a contratação foi formalizada em outubro de 2024 sem estudo técnico, termo de referência, análise de viabilidade ou demonstração de vantagem econômica.
As cotações usadas para justificar a escolha da empresa também despertaram suspeitas. Segundo a investigação, algumas das companhias apresentadas como concorrentes mantinham vínculos entre si e com o núcleo empresarial relacionado a Maurício Aparecido Benites, ligado à Redvalue e também preso preventivamente.
Para os investigadores, a relação entre as empresas pode indicar que a disputa de preços apresentada no processo não representou uma concorrência efetiva entre companhias independentes.
O Conselho Fiscal identificou ainda uma divergência de aproximadamente R$ 511,3 mil entre aquilo que teria sido produzido pela Redvalue e os valores pagos pela Santa Casa. Diante das inconsistências, recomendou a apuração das responsabilidades e a suspensão do contrato.
Mesmo após a recomendação, o contrato continuou vigente. O MPMS afirma que Alir Terra Lima possuía poderes para determinar a interrupção do acordo.
A investigação também sustenta que não foram encontrados documentos comprovando qualificação técnica da empresa para atuar em hospitais de grande porte nem estudos detalhados sobre os custos e benefícios financeiros da contratação.
Suspeita de concorrência apenas aparente
Outro ponto investigado é a relação entre as empresas que participaram das cotações.
Segundo o MPMS, uma delas, a Ex Be Finance & Tecnology, mantinha ligação com Maurício Benites e, durante o período em que as cotações foram realizadas, pertencia formalmente ao empresário. Posteriormente, a empresa passou para o nome de Fernanda de Freitas Diniz, apontada nos autos como companheira dele.
Os investigadores também encontraram semelhanças na estrutura, nas expressões e na organização dos textos das propostas apresentadas pelas empresas.
Na avaliação do Gecoc, esses elementos reforçam a hipótese de que as propostas possam ter sido produzidas a partir de um mesmo modelo, dando apenas aparência de concorrência ao processo.
Quase R$ 10 milhões na Santa Casa Saúde
A segunda frente da investigação envolve contratos da operadora Santa Casa Saúde.
Empresas formalmente controladas por Paulo da Cruz Duarte, descrito nos autos como sócio e parceiro profissional de Alir Terra Lima, foram contratadas para realizar diferentes serviços.
Os trabalhos incluíam assessoria jurídica, atendimento, cobrança, emissão de boletos, comercialização de planos, administração de beneficiários, entrevistas qualificadas, telemedicina, publicidade e atividades relacionadas à implantação de uma filial em Dourados.
Somente em 2025, cerca de R$ 9,6 milhões foram repassados às empresas ligadas a Paulo Duarte, segundo os autos.
No mesmo ano, a operadora Santa Casa Saúde registrou resultado negativo de aproximadamente R$ 3,6 milhões.
O MPMS também analisa a relação profissional mantida anteriormente entre Paulo e Alir. Conforme a investigação, os dois já atuavam conjuntamente na advocacia e chegaram a representar clientes nos mesmos processos, além de compartilharem estrutura profissional instalada em imóvel pertencente a Alir.
MPMS aponta dificuldades para obter documentos
Além dos contratos e pagamentos, o Ministério Público investiga o que classifica como uma possível “ocultação sistemática de documentos”.
Segundo o Gecoc, informações importantes para a fiscalização não teriam sido entregues ou teriam sido apresentadas de maneira incompleta, apesar das solicitações feitas pelos órgãos de controle.
Entre os documentos requisitados estavam contratos, anexos, propostas comerciais, critérios de formação de preços, memórias de cálculo, ordens de serviço, notas fiscais e relatórios de execução.
Na Santa Casa Saúde, o MPMS atribui a Beatriz Lemes da Silva a responsabilidade pela apresentação de documentos relacionados às empresas vinculadas a Paulo Duarte. A investigação afirma que parte dos materiais continuou ausente mesmo após cobranças.
A Controladoria-Geral do Estado (CGE) também teria encontrado dificuldades durante auditoria especial destinada a analisar a aplicação de recursos provenientes do Sistema Único de Saúde (SUS) em 2025.
A controvérsia chegou ainda ao Judiciário. Em uma ação de produção antecipada de provas, a Justiça determinou que fossem apresentados documentos relacionados às contas, contratos e pagamentos da instituição. A decisão posteriormente foi confirmada pelo Tribunal de Justiça.
Seis presos na operação
A partir do material reunido, o Gecoc pediu prisões preventivas, buscas e apreensões e o afastamento cautelar de investigados.
Alir Terra Lima é apontada pelo Ministério Público como figura central da estrutura investigada e teria permitido a continuidade de contratos mesmo diante de questionamentos de órgãos de fiscalização.
Alessandro Dias Junqueira, que atuava na área administrativa e como fiscal do contrato da Redvalue, é investigado por supostamente participar da contratação e atestar serviços cuja execução não estaria suficientemente comprovada.
Rinaldo Hakme Romano, ligado à direção financeira, teria participado da condução do contrato e da viabilização dos pagamentos.
Paulo Guilherme Gutierrez Mariosa, que exercia função na área financeira e presidia o Comitê de Contratos, também aparece na investigação como participante da formalização do negócio e da programação de pagamentos.
Monique Gregório de Oliveira é investigada pela atuação no setor responsável pela medição dos serviços de digitalização, enquanto Maurício Aparecido Benites é apontado como responsável pelo núcleo empresarial relacionado à Redvalue.
As suspeitas fazem parte de uma investigação ainda em andamento. Os envolvidos terão direito ao contraditório e à ampla defesa, e não há condenação pelos fatos apurados na Operação Antidotum.









