Um áudio gravado em fevereiro deste ano pelo gerente administrativo da Santa Casa de Campo Grande, Alessandro Dias Junqueira, indica que suspeitas envolvendo integrantes da direção do hospital já circulavam entre médicos meses antes da deflagração da Operação Antidotum.
Na gravação, Alessandro relata a uma interlocutora o teor de uma reunião realizada no Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul (SinMed-MS), que teria contado com a participação de cerca de 40 profissionais. Segundo ele, médicos fizeram acusações contra o então diretor de Finanças e Administração da Santa Casa, Rinaldo Hakme Romano, e criticaram a postura da direção da instituição.
“Doutora, os médicos falaram que não aceitam o Rinaldo aqui dentro da administração, que ele rouba, a diretoria não faz nada. Isso foi falado na reunião do sindicato, onde tinha 40 médicos. Que cara a senhora tem agora para administrar, sabendo que eles sabem da situação, falando isso”, afirmou Alessandro no áudio.
Rinaldo é citado nas investigações conduzidas pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc), do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, como um dos integrantes envolvidos na formalização e execução de contratos investigados na Operação Antidotum.
De acordo com relatório do Ministério Público, Rinaldo e Alessandro teriam participado da abertura do procedimento para contratação da empresa Redvalue sem estudo técnico, termo de referência, análise de viabilidade ou demonstração de vantagem para a Santa Casa.
O documento aponta ainda que Rinaldo teria recebido do empresário Maurício Benites a minuta do contrato, participado das negociações para pagamentos, autorizado liberações de recursos e assinado documentos usados para justificar a execução do serviço.
“Ambos instauraram o procedimento de contratação da REDVALUE sem estudo técnico, termo de referência, análise de viabilidade ou demonstração de vantajosidade. Rinaldo recebeu do próprio Maurício Benites a minuta do instrumento que seria firmado, participou das tratativas de pagamento, autorizou a liberação dos recursos e subscreveu documentos utilizados para sustentar a execução contratual”, registra o relatório.
Ainda conforme o Gecoc, Rinaldo teria orientado Maurício sobre a forma como contratos e pagamentos deveriam ser apresentados para conferir aparência de regularidade administrativa ao processo.
As investigações apontam que o diretor já mantinha contato com o empresário antes da formalização do contrato e conhecia as empresas que seriam consultadas no procedimento.
“Rinaldo já mantinha contato direto com o beneficiário da contratação, conhecia previamente as três empresas que seriam acionadas e orientou a repetição formal das solicitações pelo e-mail institucional para revestir o procedimento da aparência de regularidade administrativa”, afirma trecho do relatório.
O contrato com a Redvalue foi assinado em 29 de outubro de 2024, depois de negociações envolvendo o empresário e integrantes da direção da Santa Casa.
Segundo o Ministério Público, Maurício recebia informações internas sobre a tramitação, aprovação e assinatura do contrato. A investigação também cita o então presidente da Santa Casa, Jary de Carvalho Castro, e Alir Terra Lima como integrantes da cadeia decisória relacionada à contratação.
Sindicato anuncia medidas judiciais
No mesmo contexto, Alessandro Dias Junqueira teria chamado o SinMed-MS de “covil dos monstros” e afirmado que gravou a reunião com os médicos sem autorização dos participantes.
O sindicato reagiu por meio de nota e anunciou que pretende adotar medidas administrativas e judiciais.
“O SinMed/MS não tolerará vigilância, exposição ou qualquer forma de retaliação contra dirigentes sindicais e médicos pelo exercício legítimo de seus direitos. A entidade adotará, por meio de sua Diretoria e assessoria jurídica, as medidas administrativas e judiciais cabíveis”, informou.
A Operação Antidotum investiga suspeitas de irregularidades em contratos e movimentações financeiras envolvendo a administração da Santa Casa de Campo Grande e empresas prestadoras de serviços. As responsabilidades individuais ainda dependem do avanço das investigações e das decisões da Justiça.









