O agronegócio de Mato Grosso do Sul entra na safra 2026/2027 sob alerta para os possíveis efeitos de um El Niño de forte intensidade entre o fim deste ano e o início de 2027.
Projeção da National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa) aponta 63% de probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade forte ou muito forte entre novembro e janeiro, justamente durante uma fase decisiva para o plantio e o desenvolvimento das lavouras de verão.
Para o governo estadual, a principal preocupação está na irregularidade do clima. O secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, Artur Falcette, afirma que mudanças bruscas nas condições meteorológicas dificultam o planejamento dos produtores.
Segundo ele, Mato Grosso do Sul costuma ter períodos de seca e chuva relativamente bem definidos, o que permite um calendário agrícola mais previsível. Com o El Niño, porém, podem ocorrer ondas de calor mais intensas, chuvas pontuais e períodos de escassez hídrica.
Falcette lembra que o Estado já registrou situações fora do padrão neste ano, com alternância entre frio, calor e chuva em períodos pouco comuns. Para ele, eventos desse tipo aumentam a dificuldade de definir as melhores janelas de plantio.
Apesar do alerta, a Aprosoja-MS pondera que a ocorrência de El Niño ou La Niña, isoladamente, não determina o resultado das lavouras.
De acordo com o coordenador técnico da entidade, Gabriel Balta, a análise das últimas 15 safras de soja mostra que anos sob influência de fenômenos semelhantes tiveram produtividades bastante diferentes.
A explicação está principalmente na distribuição regional das chuvas. Enquanto áreas do sul, como Dourados, podem enfrentar determinado padrão climático, regiões do norte e nordeste, como Chapadão do Sul e Costa Rica, podem registrar condições distintas.
“O Enos [El Niño-Oscilação Sul] deve ser interpretado como um sinal de tendência climática, e não como uma previsão direta da produtividade”, afirma Balta.
Entre as principais culturas do Estado, o milho aparece como uma das maiores preocupações. Projeção do Itaú estima que os efeitos do El Niño podem contribuir para uma retração de 1,3% no PIB da agropecuária brasileira em 2027, com possibilidade de queda de 17% na produção de milho.
A economista Julia Gottlieb, do Itaú Unibanco, destaca que o cereal historicamente apresenta maior vulnerabilidade ao fenômeno. Em episódios recentes de El Niño forte, as perdas chegaram a 21% entre 2015 e 2016 e a 13% entre 2023 e 2024.
O risco para Mato Grosso do Sul também está ligado ao calendário. Caso a irregularidade das chuvas atrase o plantio da soja, a colheita também pode ser postergada, reduzindo a janela ideal para implantação da segunda safra de milho.
As incertezas já começam a ser incorporadas pelo mercado. Na Bolsa de Chicago, os contratos futuros do milho acumularam alta próxima de 17% em agosto. Na B3, contratos com vencimento em março de 2027 chegaram a superar R$ 82 por saca.
A soja também avançou. Contratos internacionais ultrapassaram US$ 13 por bushel, enquanto, no Brasil, negociações nos portos chegaram à faixa entre R$ 162 e R$ 164 por saca. A soja da nova safra também superou R$ 150 em algumas negociações.
Além dos grãos, eventuais perdas provocadas pelo clima podem chegar ao consumidor. Frutas, hortaliças, arroz e feijão tendem a responder mais rapidamente à redução da oferta, enquanto leite, ovos e carnes podem ficar mais caros se houver prejuízos às pastagens e aumento do custo da alimentação animal.
O cenário preocupa ainda mais porque parte dos produtores sul-mato-grossenses chega à nova safra pressionada financeiramente. Segundo Falcette, o setor acumula os efeitos de duas safras ruins de soja, apesar do bom desempenho recente do milho.
Até o momento, segundo o secretário, não houve sinalização concreta de medidas específicas do governo federal para auxiliar produtores que eventualmente sofram prejuízos relacionados ao El Niño.









