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Tecnologia mapeia risco de doenças entre pisciculturas conectadas por rios

Pisciculturas instaladas em uma mesma bacia hidrográfica podem transmitir doenças entre si por meio do fluxo da água, inclusive quando estão separadas por grandes distâncias. A constatação faz parte de uma pesquisa inédita no Brasil conduzida pela Embrapa Pesca e Aquicultura em parceria com o Istituto Zooprofilattico Sperimentale delle Venezie (IZSVe), da Itália.

O estudo aplicou pela primeira vez no País um protocolo baseado em Sistemas de Informação Geográfica (SIG) para identificar o risco de propagação de doenças entre propriedades aquícolas. A metodologia permite produzir mapas que classificam as fazendas em níveis alto, médio ou baixo de risco sanitário, considerando a localização de cada empreendimento no curso d’água e sua relação com focos conhecidos de infecção.

A proposta é utilizar a tecnologia como ferramenta de alerta precoce, permitindo que produtores e órgãos de defesa sanitária adotem medidas antes que uma doença se espalhe por diferentes propriedades. Os resultados da pesquisa foram publicados na revista científica Frontiers in Marine Science.

Água pode transportar agentes infecciosos

O protocolo foi desenvolvido pelo instituto veterinário italiano IZSVe e adaptado às condições da aquicultura brasileira em parceria com a Embrapa. A metodologia parte do princípio de que a água pode funcionar como vetor natural para a transmissão de agentes causadores de doenças.

Quando uma piscicultura contaminada está localizada a montante de outra e existe conexão hídrica entre elas, o fluxo da água pode transportar ovos e cistos de parasitas, além de bactérias e vírus.

Segundo o geógrafo Rodrigo Macario, do IZSVe, a sanidade aquícola não depende apenas das condições existentes dentro de cada propriedade. O fluxo dos rios, a rede hidrográfica e a própria distribuição espacial das fazendas também interferem diretamente no risco de disseminação de doenças.

Para realizar o mapeamento, os pesquisadores identificam e georreferenciam as propriedades existentes em determinada bacia hidrográfica. Depois, analisam as conexões estabelecidas pelo fluxo da água.

As propriedades situadas a jusante de um foco confirmado e diretamente conectadas pela água são consideradas de alto risco. Fazendas em áreas com conectividade indireta ou sazonal recebem classificação de médio risco. Já aquelas sem ligação hídrica com focos conhecidos são enquadradas como de baixo risco.

Tambaqui foi usado para validar protocolo

A validação da metodologia no Brasil teve como foco o acantocéfalo, um dos parasitas mais frequentes no tambaqui (Colossoma macropomum), espécie de grande importância econômica para a piscicultura amazônica.

A escolha ocorreu devido à disponibilidade de informações sobre o parasita e ao impacto da enfermidade sobre a produção. Rondônia, por exemplo, registrou um surto significativo em 2015.

O ciclo de transmissão ocorre quando peixes infectados eliminam ovos do parasita pelas fezes. Pequenos crustáceos conhecidos como ostracodes ingerem esses ovos e posteriormente são consumidos por peixes saudáveis, que acabam infectados. O ciclo completo leva aproximadamente dois meses.

Além do problema sanitário, a presença do parasita pode provocar prejuízos econômicos. De acordo com a geógrafa Marta Ummus, da Embrapa Amazônia Oriental e uma das líderes do estudo, peixes parasitados podem deixar de ganhar até 20% do peso esperado em comparação aos animais saudáveis.

Modelo de criação aumenta risco em Rondônia

O estudo de caso foi realizado na Bacia do Rio Machado, em Rondônia. Na região, os pesquisadores encontraram uma característica que pode favorecer a transmissão de doenças: a construção de tanques de piscicultura diretamente no leito de igarapés.

Esse modelo estabelece conexão hídrica praticamente permanente entre diferentes propriedades. Assim, um foco de contaminação localizado rio acima pode atingir empreendimentos instalados a jusante.

A pesquisadora Patricia Oliveira Maciel, especialista em sanidade da Embrapa Pesca e Aquicultura, explica que a corrente de água pode transportar diferentes agentes infecciosos de uma propriedade para outra, ampliando a necessidade de ações de vigilância que considerem toda a bacia hidrográfica, e não apenas cada empreendimento isoladamente.

Falta de dados ainda limita monitoramento

Apesar do potencial da tecnologia, a equipe encontrou dificuldades para obter informações georreferenciadas sobre a ocorrência de doenças junto aos órgãos estaduais de defesa sanitária animal. Por questões institucionais e de segurança, os dados primários não foram disponibilizados, obrigando os pesquisadores a recorrer a informações publicadas em trabalhos científicos.

Outro problema apontado é a informalidade de parte da piscicultura amazônica. A existência de empreendimentos sem licenciamento ambiental ou registro oficial dificulta tanto o mapeamento das propriedades quanto o acompanhamento de ocorrências sanitárias.

Na avaliação de Marta Ummus, ampliar a transparência e a disponibilidade dos dados é fundamental para que sistemas de inteligência geográfica sejam utilizados de maneira mais efetiva na prevenção de surtos.

Ferramenta pode monitorar diferentes doenças

Embora tenha sido validado utilizando o acantocéfalo, o protocolo não está restrito ao parasita. A metodologia pode ser adaptada para monitorar diferentes agentes transmitidos pela água, incluindo bactérias e vírus.

Para isso, parâmetros como período de incubação, tempo de sobrevivência do agente no ambiente e quantidade necessária para provocar uma infecção podem ser incorporados ao modelo.

A intenção é transformar o protocolo em uma ferramenta permanente de apoio à vigilância sanitária da aquicultura, capaz de orientar produtores e autoridades na identificação de áreas vulneráveis e na adoção antecipada de medidas de controle.

Para ampliar o uso da tecnologia no campo, os pesquisadores apontam três desafios principais: melhorar o acesso aos dados dos órgãos estaduais, reduzir a informalidade na produção aquícola e aumentar a rastreabilidade ao longo da cadeia, desde a produção de alevinos até a engorda, o abate e o processamento.

O trabalho é resultado de um acordo de cooperação técnico-científica entre a Embrapa e o Istituto Zooprofilattico Sperimentale delle Venezie. A expectativa é que a inteligência geográfica possa contribuir para o crescimento sustentável da piscicultura brasileira ao permitir respostas mais rápidas diante do surgimento de doenças.

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